Editorial

Na Sociedade do Conhecimento da qual fazemos parte, as áreas técnicas terão cada vez mais influência. E é natural que assim seja. Afinal, diante da crescente complexidade do conhecimento técnico, científico e tecnológico, cada vez mais as decisões das empresas e do Poder Público necessitarão do crivo dos especialistas. Há, no entanto, uma enorme distância entre este senso comum e a prática atual. Decisões críticas são frequentemente tomadas por leigos. Muitas envolvem questões ligadas à geotecnia. Há gestores públicos que chamam a si responsabilidades que são rigorosamente técnicas. O resultado é por vezes o desencontro entre o projetado e o realizado, entre o orçado e o custo final – tudo isso gerando obras disfuncionais, que causam prejuízos enormes à sociedade.
Tal situação vem sendo progressivamente alterada. Há exemplos recentes indicando que a visão técnica começa a prevalecer mesmo na gestão dos negócios públicos. É o caso do mapeamento de áreas de risco que teve início sob os auspícios do governo Federal – assunto tratado nesta edição da revista e-ABMS. A medida decorre de outra importante mudança, que foi a aprovação da Lei 12.608, em abril deste ano, criando a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil e outros mecanismos necessários para a sua implantação efetiva.
Trata-se de uma luta de décadas da nossa associação, da ABGE e de outras entidades irmãs. Mas foi preciso que milhares de brasileiros morressem em centenas de deslizamentos para que o país finalmente despertasse para o problema e passasse a encará-lo de um ponto de vista técnico. Antes tarde do que nunca, diz a sabedoria popular. Cabe agora à área técnica fornecer o necessário suporte aos gestores públicos para que se passe da intenção ao gesto, da identificação das áreas de riscos para a superação ou mitigação do problema. Haveremos, infelizmente, de conviver ainda por muito tempo com tais desastres. Mas o caminho, o rumo certo já foi apontado.
Nós, que estamos na fronteira técnica, podemos fazer muita coisa para apressar a participação mais expressiva da nossa comunidade nas decisões do Poder Público. Não que sejamos movidos nesse caso por mero capricho ou vaidade. Trata-se, na verdade, de uma postura republicana. Queremos contribuir como cidadãos para dotar a gestão pública cada vez mais de critérios técnicos, cartesianos e racionais.
Podemos melhorar nossas megacidades, com soluções de mobilidade urbana, mitigação de desastres e sustentabilidade. Podemos oferecer soluções a problemas ambientais, que evitam contaminar o solo e a água subterrânea ou para descontaminá-los. Estamos presentes em todas obras de infraestrutura – barragens, metrôs, obras viárias, estádios, mobilidade urbana em geral, construção de moradias.
A pujança do nosso setor pode ser vislumbrada, mais uma vez, no último SEFE, cujo balanço é apresentando nesta edição da revista. Liderado pela ABEF, o evento contou com o apoio do Núcleo São Paulo da ABMS, da ABEG e do SINABEF. E alcançou enorme sucesso – tanto do ponto vista científico quanto do ângulo da realização de negócios. Outro diferencial foi a participação inédita do DFI (Deep Foundations Institute dos EUA), que deu um cunho internacional e uma nova dimensão ao SEFE.
Capaz de promover encontros técnicos e comerciais tão expressivos, apto a mobilizar talentos provenientes de dezenas de países, o setor de geotecnia, que reúne associações tão importantes, pode e deve somar esforços para aproximar-se do Poder Público e agir decisivamente para que tenhamos um Projeto de Brasil para o século 21.
Um projeto que passe, necessariamente, por investimentos continuados em infraestrutura. Temos tudo ainda por fazer nessa área. Portos, aeroportos, estradas, transporte urbano de massa, hidrelétricas, projetos de recuperação ou proteção ambiental, soluções alternativas de produção de energia... enfim, um país inteiro a construir. Vamos, portanto, erguer nossa voz. Fazê-la audível para a sociedade, a mídia, os gestores públicos e cumprir nossa função cidadã.
ABMS Diretoria