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A engenharia brasileira e o acidente de Brumadinho foram temas de debate em São Paulo

sexta-feira, 15 de março de 2019 comentários

No dia 14 de março, entidades técnicas se reuniram em São Paulo para debater o Momento Atual da Engenharia. Cerca de 100 pessoas, entre presentes e internautas que assistiram à transmissão ao vivo, participaram da discussão que abordou o acidente com a barragem de Brumadinho, as lições do acidente de Mariana e, principalmente, a urgente reação da engenharia brasileira frente à crise econômica, técnica e ética que se instalou no setor. O evento foi realizado pela ABMS e pelo Instituto de Engenharia (IE), com apoio da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental (ABGE), da Academia Nacional de Engenharia (ANE), do Comitê Brasileiro de Barragens (CBDB), da Associação Brasileira de Geossintéticos (IGS Brasil), da Associação Brasileira das Indústrias de Não Tecidos e Tecidos Técnicos (Abint), do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro e da Maccaferri Brasil.

Roberto Kochen, diretor do Departamento de Infraestrutura e Habitat do IE abriu o evento apresentando os debatedores convidados: Eduardo Lafraia, presidente do IE, Alexandre Gusmão, presidente da ABMS, Alberto Sayão, diretor da ANE e ex-presidente da ABMS, o engenheiro Francisco Oliveira, o geólogo Álvaro dos Santos, Delfino Gambetti, presidente da ABGE, e Faiçal Massad, professor da Poli-USP e ex-presidente da ABMS. Kochen também fez parte do debate.

Eduardo Lafraia deu início ao debate ressaltando que Brasil vivencia atualmente uma falta de engenharia. “É um absurdo o país ainda contratar obra por menor preço e não por qualidade”.

Alberto Sayão (foto à direita) mostrou imagens da ruptura da barragem de Brumadinho e apontou pontos críticos, como o grande volume de água acumulada. O especialista ressaltou ainda que as recomendações da empresa que prestava consultoria à Vale, Tüv Süv, não foram seguidas. “E esta, infelizmente, é uma prática que se repete. Vimos o mesmo em Mariana. O que podemos fazer para que as orientações das consultorias sejam seguidas?”.

Outro ponto negativo levantado por Sayão foi a indicação da comissão de investigação ser definida pela própria mineradora. Para ele, o governo é que deveria indicar os nomes para esta comissão, com participação das entidades técnicas. E, após a conclusão das investigações, a comissão deveria compartilhar com a comunidade técnica o que foi aprendido.

Alexandre Gusmão iniciou sua apresentação ressaltando que o acidente de Brumadinho é um pequeno pedaço do grande problema que a engenharia brasileira enfrenta. O presidente da ABMS lembrou que a economia começou a dar sinais de melhoria e que a expectativa agora é que a demanda por infraestrutura comece a aparecer. “E aí? Vamos fazer tudo como vínhamos fazendo? O resultado está aí…”.

Gusmão reforçou a importância da engenharia para o país. De acordo com dados apresentados, a cada R$ 1 investido em infraestrutura, gera-se R$ 1,50 em movimentação da economia.

O engenheiro abordou ainda a situação das obras públicas no país. Segundo ele, uma das grandes consequências da forma como a engenharia é feita no Brasil, é a grande quantidade de obras públicas paralisadas. Os dados mostram que 40% dessas obras estão paradas no país.

Gusmão (foto à esquerda) terminou lembrando que “nós, engenheiros, precisamos retomar o protagonismo nas decisões de engenharia no Brasil. Os acidentes e tragédias que vêm acontecendo, como colegas já disseram, não são obras da engenharia, mas da falta dela. As obras de engenharia são planejadas para servir a sociedade e não para matar pessoas.”

Em seguida vieram as apresentações de Roberto Kochen, que falou sobre o monitoramento de barragens e mostrou diversos exemplos ao público. Francisco Oliveira lembrou que existem cerca de 40 mil barragens no Brasil e que seria impossível haver técnicos suficientes para fiscalizar adequadamente todas elas. Assim, cada barragem é responsável por fazer a própria fiscalização e enviar um relatório ao órgão responsável. “O que acontece, no entanto, é que apenas 5% dos relatórios são, de fato, enviados. Este é o grande problema de fiscalização no país”.

Faiçal Massad abordou a perda da memória das obras, tanto por aposentadoria dos engenheiros responsáveis quanto pela substituição, diante da crise, de engenheiros experientes por jovens profissionais. No caso de Brumadinho, Massad apontou um trecho do relatório da Tüv Süd em que a empresa demonstra preocupação com a memória da obra.

Antes de encerrar sua apresentação, Faiçal Massad defendeu a competência técnica de Makoto Namba e André Yassuda, engenheiros envolvidos no caso Brumadinho. A manifestação teve total apoio da plateia, que respondeu com aplausos.

A segunda parte do encontro teve a presença da jornalista Cristina Serra, autora do livro “Tragédia em Mariana – A história do maior desastre ambiental do Brasil”. Ela abriu o debate dizendo que “o descaso com a vida humana e com o meio ambiente foi uma das grandes lições que não foram aprendidas com Mariana”.

Na sequência, seguiu-se debate com participação da plateia sobre temas técnicos e éticos envolvendo os acidentes de Mariana e Brumadinho.

Ao final, Alexandre Gusmão, presidente da ABMS, anunciou que a entidade lançará, em breve, a posição da ABMS em relação à Resolução ANM No.4 – 15/02/2019, que proíbe a construção de barragens pelo método a montante e o descomissionamento das barragens deste tipo já existentes.

Debates neste formato serão realizados em diversos locais do Brasil. O próximo evento já confirmado será no Rio de Janeiro, dia 11 de abril.

Acesse a galeria de fotos do evento

Assista à entrevista de Alexandre Gusmão sobre o encontro


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