Painel do Associado

A engenharia brasileira perde Milton Kanji

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021 comentários

Faiçal Massad

É com muito pesar que comunicamos o falecimento, na manhã de 12 de fevereiro de 2021, do amigo Milton de Assis Kanji.

Milton Kanji, talvez poucos saibam, queria ser músico profissional, mas o seu pai não o deixou, pois considerava que ele deveria escolher uma “profissão de verdade”, segura, o que o levou a estudar geologia. Mas nem por isso se afastou da música. Muito pelo contrário, pois, além de fundar em 1966 o Conjunto Musikantiga, de São Paulo, com outros colegas, incluindo o seu irmão, hoje o conhecido Maestro e Flautista Ricardo Kanji, deu todo o apoio aos seus dois filhos e filha, que são músicos profissionais. Esse conjunto foi recentemente homenageado durante uma hora pelo Maestro Júlio Medaglia no programa diário “Fim de Tarde”, da Rádio Cultura.

Graduado em Geologia pela Universidade de São Paulo (1960), trabalhou em seguida na Geotécnica S.A., empresa pioneira no país no projeto de obras de terra e fundações. Em 1969, obteve o título de MSc pela Universidade de Illinois (EUA), sob orientação dos renomados professores Don Deere e Frank Patton, com a dissertação intitulada “Shear Strength of Soil-Rock Contacts”, referência obrigatória para quem estuda o assunto. Ao voltar ao Brasil, reintegrou-se novamente na vida profissional, com atividades que perduraram até os dias de hoje. Foi sempre fiel ao seu lema: “a teoria sem a prática é estéril; a prática sem a teoria é cega”. Daí as alternâncias entre o prático e o teórico, que permearam a sua carreira e sua vida profissional. Doutorou-se em 1973 em Geociências com o também renomado Prof. Viktor Leinz, pela Universidade de São Paulo.

Desenvolveu atividades didáticas. Primeiro, no Instituto de Geociências da USP, de 1964 a 1971, e, em seguida, na Escola Politécnica da USP, onde permaneceu até a sua aposentadoria. Foi autor de várias pesquisas, algumas delas com seus alunos de mestrado e de doutorado, em temas que o projetaram nacional e internacionalmente. Em suas palavras, “estava frequentemente fazendo planos mentais para investigar determinados assuntos”. Em 2000, obteve o título de Livre-Docente pela EPUSP, com a tese: “Aplicações da Geologia de Engenharia e da Mecânica das Rochas às Obras de Terra e de Engenharia Ambiental”.

Teve uma inserção internacional relevante, quer como Consultor Técnico de obras civis, no Brasil, em países andinos e na Argentina, quer como membro de alguns comitês técnicos, como o de Landslides da ISSMGE/ISRM, ou ainda como Coordenador do IAEG Working Group on Soft Rocks. Em 2019, como fruto dessa intensa atividade, foi um dos editores do livro “Soft Rock Mechanics and Engineering”. Em 1978, participou da organização do International Symposium on Rock Mechanics Related to Dam Foundations, realizado em São Paulo sob os auspícios da ABMS, com a publicação dos anais em dois volumes.

Por suas atividades e contribuições, recebeu da ABMS os Prêmios Terzaghi, em 1980, e Costa Nunes, em 1997.

Dele pode-se dizer: eis aqui alguém que trilhou um caminho inverso ao de Terzaghi, que começou como engenheiro e virou geólogo. Pois Kanji começou como geólogo, mas virou engenheiro. Ou melhor, harmonizou, como numa melodia, esses acordes, o geólogo, o engenheiro e, deve-se acrescentar, o pesquisador.

Milton Kanji tocou essa belíssima melodia, em benefício da comunidade geotécnica brasileira e internacional. E o fez com a alegria e o bom humor que a todos contagiava.

Leia também o depoimento dos professores e amigos Luiz Guilherme de Mello e Georg Sadowski.

O velório será realizado no Cemitério do Redentor, dia 13/2, às 10h. O enterro será às 11h, no mesmo local. O endereço é Av. Dr. Arnaldo 1105, Sumaré, São Paulo (SP).


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