Painel do Associado

A Engenharia precisa assumir a liderança das decisões técnicas em prol da segurança e da qualidade

segunda-feira, 11 de março de 2019 comentários

A decisão de realizar esta ou aquela obra de engenharia é uma decisão política, quando envolve o Poder Público, ou empresarial, quando envolve companhias e agentes privados. Tomada essa decisão, os próximos passos deveriam envolver necessariamente a comunidade técnica, formada por engenheiros, empresas de projetos, calculistas e profissionais ligados à construção civil.

Na verdade, mesmo as decisões políticas e empresariais precisariam estar informadas de conhecimento técnico, fornecido pela engenharia e por outras áreas do conhecimento, para que elas tenham qualidade e eficácia, e para que atendam ao interesse público.

Se essa regra simples fosse de fato seguida em nosso país, teríamos obras com muito mais segurança e qualidade. Episódios de ruptura de obras de engenharia seriam muito mais raros e suas consequências, minimizadas.

O problema está no fato de que injunções políticas, legais ou até mesmo empresariais se sobrepõem muitas vezes às análises de engenheiros e de outros representantes da comunidade técnica, baseadas na boa teoria e nas experiências havidas mundo afora nos mais diversos tipos de iniciativa.

Essas interferências e exterioridades são de toda ordem. A contratação de uma obra pública com base no menor preço é uma delas. A adoção de certa modalidade construtiva a partir de critérios exclusivamente econômicos é outra. É óbvio que o preço é um critério essencial para a tomada de qualquer decisão. Mas o preço não pode ser o primeiro ou único critério, sobrepondo-se à técnica.

Para projetarmos uma obra qualquer, será preciso, mais do que nunca, sofisticar nossas análises e dar prioridade aos critérios técnicos, de segurança e de qualidade, e levar em conta também outros fatores, como o preço, o respeito ao meio ambiente, as questões urbanísticas e tantas outras. Mas a hegemonia deve ficar a cargo da comunidade técnica e dos engenheiros, no caso de obras civis.

Não estamos aqui promovendo a defesa de uma corporação. Nosso objetivo é o interesse público e a defesa da sociedade e da população brasileira. Nós, engenheiros, sabemos que todas as obras de engenharia comportam riscos. Não há obra de risco zero. O que fazemos todos os dias é pensar e propor soluções que reduzam substancialmente os riscos associados a qualquer obra, fazendo isso de forma a que o custo resultante possa ser arcado pela sociedade.

A Nação quer obras de qualidade, seguras, com preço justo e finalidade social bem definida. Para que isso seja possível, para que possamos estar razoavelmente seguros em relação aos episódios de rupturas de barragens, quedas de pontes e viadutos, incêndios em prédios e museus, precisamos situar a engenharia e os engenheiros na liderança das decisões técnicas, sejam elas públicas, sejam privadas.

Estamos dispostos a assumir essa responsabilidade desde que sejamos de fato parceiros nas decisões construtivas e não meros profissionais chamados a atestar a segurança de estruturas projetadas e construídas com base em critérios discutíveis ou mesmo sem nenhum critério.

Para finalizar, uma palavra sobre o acidente em Brumadinho ocorrido em 25 de janeiro deste ano. Este episódio deve ser investigado de modo aprofundado, isento e com total transparência. Além da identificação de eventuais responsáveis, é fundamental identificarmos as causas da ruptura da barragem para evitar que fenômenos semelhantes voltem a ocorrer no futuro. Assim procede a indústria aeronáutica nos acidentes aéreos. Assim também precisamos fazer.

Neste ano em que o Brasil dá início a um novo momento e que sua economia começa a mostrar sinais de recuperação, é fundamental refletirmos sobre o papel que destinamos à engenharia e aos engenheiros. Acreditamos que a boa técnica deva prevalecer em relação à decisão política ou empresarial. Não construiremos a Nação que sonhamos sem uma engenharia pujante e protagonista.

Alexandre Duarte Gusmão
Presidente da ABMS


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