Painel do Associado

A importância das entidades técnicas

sexta-feira, 22 de agosto de 2014 comentários

O presidente da ABMS, André Assis, concedeu entrevista para a Revista Concreto & Construções – publicação do Ibracon (Instituto Brasileiro do Concreto) – e tratou de diversos temas, como sua experiência no projeto da Usina Hidroelétrica de Tucuruí, em sua passagem pela Themag como estagiário e engenheiro junior. “A experiência na Themag foi a melhor possível, porque foi uma época de muitas obras e muito trabalho porque existia uma interação e integração entre os diversos níveis de engenharia na empresa”, contou André.
Além disso, abordou um assunto importante e recorrente no meio profissional: a formação dos estudantes que saem para o mercado de trabalho na área de Geotecnia. André afirmou que hoje em dia os cursos oferecidos pelas universidades brasileiras são “infinitamente” melhores do que antigamente e os alunos saem das universidades muito bem formados e aptos ao mercado de trabalho.

André também falou sobre a importância de entidades como CBT (Comitê Brasileiro de Túneis), ITA (International Tunnelling Association) e ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos). “Têm um papel fundamental e emblemático: a distribuição do conhecimento”, afirmou.

Por fim, Assis falou sobre seus hobbies e o que gosta de fazer no tempo livre. “Eu tenho dois hobbies que me distraem de minha vida corrida e profissional. O que começou primeiro foi a fotografia, e também mexer nas imagens. O outro hobbie, que é uma massagem para a alma, é a motocicleta”, finalizou.

Confira a íntegra da entrevista concedida por André Assis à Concreto & Construções.

Personalidade Entrevistada

 

André Pacheco de Assis

Formado em Engenharia Civil pela Universidade de Brasília (UnB), em 1980, especializou-se em Geotecnia, trabalhando no escritório da Themag Engenharia em Brasília, de 1979 a 1984, onde participou do projeto da usina hidrelétrica de Tucuruí, e concluindo seu doutorado na Universidade de Alberta, em 1990.

Desde 1989, é professor do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental na Universidade de Brasília, onde desenvolve pesquisas sobre mecânica de rochas, geotecnia aplicada à mineração e obras subterrâneas, de terra e enrocamento.

Foi presidente do Comitê Brasileiro de Túneis, de 1998 a 2002, da International Tunnelling and Underground Space Association (ITA), de 2001 a 2004, e atualmente é presidente da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS).

Ibracon – Quais os motivos que o fizeram cursar Engenharia Civil na graduação e se especializar em Geotecnia?

PACHECO DE ASSIS – Na década de 70, o Brasil tinha um volume enorme de obras, o que mexia com os jovens: queríamos trabalhar com infraestrutura! Certamente, minha decisão foi no sentido de fazer parte da construção de obras que levassem à melhoria da qualidade de vida do país. Por ser a engenharia civil um campo muito amplo, na faculdade fui descobrindo disciplinas que eu nem sabia que existiam, como a geotecnia, com a mecânica dos solos e das rochas e as obras geotécnicas. Por alguma razão, creio que por influência de professores e palestrantes, resolvi ir para a área, principalmente também por conta das barragens. Fui para a geotecnia visando à engenharia de barragens, que, naquela época, era o grande orgulho da engenharia brasileira: a construção de barragens entrava nas casas dos brasileiros, via jornais televisivos, como uma coisa boa, positiva, que todos tinham orgulho. Hoje, parece acontecer o contrário: qualquer grande obra de infraestrutura é muito questionada, com um viés bastante negativo por parte da sociedade.

Ibracon – Quais as razões para esse viés negativo da sociedade em relação às grandes obras de engenharia?

PACHECO DE ASSIS – Toda sociedade moderna precisa de grandes obras de infraestrutura para produção de energia, para transporte etc. Mas, para tudo o que é feito pelo homem existem pontos positivos e negativos. Hoje, existe uma tendência para se focar mais os malefícios do que os benefícios das obras. Por um lado, os grupos organizados que difundem os impactos negativos das grandes obras têm muita força e pouca necessidade de provar o que dizem. Qualquer coisa que falam é publicada. Por outro lado, as associações de engenharia são muito tímidas, não reagindo à altura com o lado positivo das obras. Veja-se o caso da matriz hidrelétrica brasileira, predominante na geração de energia elétrica no país, ser motivo de elogio ao Brasil pelo resto do mundo, por ser uma fonte limpa de produção de energia, exceto no próprio Brasil.

Ibracon – Que lições você aprendeu em sua rápida passagem de quatro anos pela Themag Engenharia, onde participou do projeto da UHE Tucuruí, estudo de inventário e viabilidade do médio Tocantins e do estudo da fundação rochosa da UHE Peixe, entre outros?

PACHECO DE ASSIS – Por exigência da Eletronorte, com sede em Brasília, a Themag Engenharia, envolvida no projeto da usina hidrelétrica de Tucuruí, teve que abrir um escritório na capital federal. Vieram para este escritório cerca de 400 profissionais, dos quais mais de 200 eram engenheiros, profissionais de altíssimo nível, a maioria de São Paulo. Nesta época, faltando apenas um ano para me formar na Universidade de Brasília, ganhei uma das duas vagas de estagiário na empresa, vindo a ser junto com outro estagiário os primeiros não paulistas contratados pela Themag em Brasília. Fiz estágio de um ano e depois trabalhei como profissional por mais quatro anos em projetos de barragens. A experiência na Themag foi a melhor possível porque foi uma época de muitas obras e muito trabalho e porque existia uma interação e integração entre os diversos níveis de engenharia na empresa. O engenheiro sênior preocupava-se com a formação profissional dos engenheiros júniores. Sentíamos parte de uma equipe completamente integrada. Havia inclusive uma filosofia na empresa de que seus profissionais preparassem trabalhos para congressos, como os do IBRACON, da ABMS, do CBDB etc. Dessa forma, o trabalho na Themag foi uma escola.

Ibracon – O que o levou, tão cedo, a ingressar na carreira acadêmica, indo fazer pós-graduação na Universidade de Alberta, no Canadá?

PACHECO DE ASSIS – Desde o início, eu não queria ser um recém-formado fazendo mestrado. Queria trabalhar para entender as peculiaridades da minha profissão e, quando fosse fazer o mestrado ou doutorado, já saber o porquê eu estava ali. Quando chegou a hora, eu já era casado. Aí, juntei duas coisas na escolha: o interesse de ter uma experiência no exterior e o fato de ser mais financeiramente compensador eu ir estudar no exterior. No Brasil, teria que continuar trabalhando, o que faria com que não me dedicasse integralmente à pós-graduação. Na época, estudei três ou quatro universidades no exterior e pesei o melhor benefício. Todas eram muito boas, mas em Alberta havia algumas características interessantes: ela já era uma universidade famosa, com professores de renome internacional na área de engenharia civil, com um bom currículo profissional, com pesquisas científicas de ponta ou aplicadas, e oferecia um acolhimento muito bom, com uma vila universitária para estudantes casados. No final, a escolha se mostrou acertada: lá, encontrei outros oito engenheiros brasileiros fazendo doutorado em geotecnia, o que mostrava ser um bom curso.

Ibracon – Já na Universidade de Brasília, em 1989, além das aulas na graduação e na pós-graduação na área de Geotecnia, você prestou consultoria para empresas, como a Mineração Vale do Jucurici, Metrô do Distrito Federal, Mineração Trindade e Companhia Vale do Rio Doce. Conte-nos um pouco sobre essas consultorias, quais os desafios que trouxeram na época.

PACHECO DE ASSIS – Foi muito importante a lição acadêmica que trouxe do doutorado. No exterior, principalmente na América do Norte, a filosofia é de que todo professor universitário, para ser uma referência, além de seu trabalho acadêmico, precisa ter um vínculo com a indústria. Algumas universidades premiam seus professores que buscam recursos na indústria. Morei no Canadá por cinco anos e ajudei, neste período, os professores a angariar fundos para a pesquisa com a iniciativa privada, bem como a trazer os problemas da indústria para dentro da universidade. Eu vim com essa cabeça para o Brasil.
Quando cheguei na Universidade de Brasília, em 1989, busquei parcerias com empresas que tinham interesse em investir na universidade. Esta não era uma postura rotineira do mercado brasileiro – a indústria trabalhando em parceria com a universidade. Geralmente, os professores buscam recursos para as pesquisas nos órgãos governamentais.
No Canadá, havia uma forte cooperativa de indústrias de mineração que apoiava algumas universidades com verbas de pesquisas, desde que elas gerassem produtos para o setor de mineração. Por isso, comecei buscando apoio das mineradoras, já que o Brasil é também um país de forte apelo mineral. As primeiras parcerias foram muito difíceis porque o setor de mineração brasileiro olhava as universidades com muita reserva, questionando se os pesquisadores seriam capazes de entregar os resultados de que precisavam, ou se conseguiriam entregar esses resultados nos prazos. Nosso acordo inicial foi o de pagar as despesas diretas dos pesquisadores que realizavam seus trabalhos dentro das empresas mineradoras. Assim que conseguimos os primeiros resultados, criamos a postura profissional de imediatamente reportá-los para as indústrias que nos subsidiavam. Dessa forma, as empresas começaram a vislumbrar que o investimento seria interessante. Por um período de quase dez anos, eu tive uma atividade muito forte relacionada com a mineração, principalmente com as mineradoras citadas, com alunos trabalhando com a geotecnia ligada à mineração, como as barragens de rejeitos.

Ibracon – Como eram definidos os temas e projetos de pesquisas? As empresas opinavam sobre eles de que forma?

PACHECO DE ASSIS – Apresentávamos os projetos de interesse dos pesquisadores da Universidade. Os industriais escolhiam, para aporte financeiro, aqueles projetos que pareciam para eles, naquele momento, importantes porque poderiam gerar soluções técnicas para problemas que vinham tendo.

Ibracon – Quais os produtos que foram aplicados nas empresas gerados dessas parcerias?

PACHECO DE ASSIS – Houve vários, mas vou citar dois em particular. Um ligado à mineração: conseguimos entender os mecanismos de disposição hidráulica das barragens de rejeitos. Verificamos quando os métodos de projeto eram ou não adequados e, no caso de não serem adequados, introduzimos o conceito de análise de risco. Ou seja, quando os métodos de projeto convencionais não eram suficientes, o que deveria ser feito para contemplar uma análise de riscos daquelas estruturas, o que se tornou uma prática do mercado. No caso do Metrô de Brasília, não só prestamos serviços para as obras com ensaios de laboratório, mas tivemos a oportunidade de analisar todos os dados de instrumentação de comportamento da construção do metrô. Com isso, pudemos analisar o comportamento da construção dos túneis em Brasília e verificar que o solo tropical poroso, característico do Sudeste e Centro-Oeste brasileiro, poderia trazer alguns tipos de comportamentos que não eram ainda contemplados na literatura convencional de túneis. Poderia se ter mais recalques induzidos pela construção de túneis do que previam as teorias convencionais de construção de túneis, dadas as características deste tipo de solo. Isso foi amplamente estudado e divulgado, inclusive internacionalmente.

Ibracon – Atualmente, existem ainda essas parcerias com empresas na Universidade de Brasília?

PACHECO DE ASSIS – Essas parcerias começaram nos anos 90, cresceram bastante por uns vinte anos, mas ultimamente recuaram, porque o Ministério Público tem entendido que elas violam a dedicação exclusiva. Fui professor convidado na Universidade de Nevada, nos Estados Unidos, e na Escola Politécnica de Lausanne, na Suíça, e também presidente de uma associação internacional presente em mais de 50 países. Posso dizer que o caminho a ser seguido pelas universidades brasileiras é o caminho da interação universidade-empresa. No entanto, nos últimos anos esse caminho tem sido dificultado pela falta de compreensão de que essas parcerias entre empresas e universidades são benéficas para ambos os lados. Em alguns estados, o Ministério Público entende que a parceria é positiva, deixando que as universidades realizem o trabalho adequadamente, enquanto que, em outros, como Brasília, este trabalho é dificultado por um trabalho burocrático desumano, que exige que se gaste mais tempo com ele do que fazendo o que interessa, que é a pesquisa.

Ibracon – Com sua larga experiência de professor na graduação e pós-graduação na UnB, você diria que o estudante sai bem formado para o mercado de trabalho na área de geotecnia? Caso ele queira trabalhar, por exemplo, numa empresa de fundações, o que ele precisará fazer, em termos de qualificação, para atuar responsavelmente e a contento na área?

PACHECO DE ASSIS – Nos anos 80, época em que fui estudar no exterior, houve um programa governamental de incentivo à pós-graduação, tanto no país quanto no exterior. O Brasil estava numa crise danada, com a engenharia civil estagnada. Mas, chegamos a ter 10 mil profissionais fazendo mestrado ou doutorado no exterior em todas as áreas. O resultado disso foi que grande parcela desses profissionais retornou ao país e reforçou os programas de pós-graduação das universidades brasileiras. Antes disso, as universidades de referência no país eram a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que tinham boas equipes e bons cursos de graduação e de pós-graduação. Com a volta desses profissionais do exterior, surgiu uma constelação de universidades brasileiras que disputam por alunos e recursos entre si.
Eu me formei na Universidade de Brasília em 1980 e dou aula nela desde 1990. Posso dizer que o curso de engenharia civil hoje na UnB é infinitamente melhor do que aquele que eu tive, porque, como eu, vários colegas trouxeram a formação recebida no exterior.
Respondendo diretamente sua pergunta: hoje nossos alunos saem muito bem formados. Um problema que tínhamos no passado recente – a baixa qualidade dos alunos – , não existe hoje, porque a engenharia civil voltou a atrair o interesse dos jovens, fazendo trinta a quarenta alunos brigarem por uma vaga, trazendo para os cursos, tantos das universidades federais quanto das universidades privadas, alunos excelentes.
Agora, é claro que a engenharia requer do profissional um período de prática profissional, para que ele consiga juntar a base teórica aprendida na universidade (a universidade não dá prática, mas teoria, ensinando o aluno a pensar) com o lado prático da profissão de engenheiro. Este período está atualmente muito curto, justamente em razão da falta de engenheiros nas empresas, fazendo com que os jovens engenheiros cheguem muito rapidamente a cargos elevados, nem sempre perfeitamente maduros.
Este é um problema momentâneo da retomada da engenharia civil no país, porque falta uma geração inteira de engenheiros entre os formados na minha época e os que estão se formando hoje. A solução para isso são cursos de treinamento de curta duração. Hoje, o profissional tem que fazer cursos oferecidos pelas associações e estas precisam estar preocupadas emoferecer cursos de qualidade para diminuir essa lacuna. Porque aquele aprendizado que eu tive na Themag, como lhe falei, onde meu chefe estava preocupado com minha formação e o superior dele estava preocupado com sua formação, para ele avançar nos quadros da empresa, não temos hoje nas empresas, por falta de tempo, por falta de capacidade profissional, por falta de número suficiente de profissionais nas empresas. Hoje, o mercado é extremamente competitivo e carece de profissionais. Então, as empresas têm investido em treinamento de seus quadros.

Ibracon – Como presidente da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos (ABMS) e ex-presidente da International Tunneling Association (ITA ) e do Comitê Brasileiro de Túneis, qual é o papel das entidades do setor construtivo na qualificação profissional e na disseminação do conhecimento?

PACHECO DE ASSIS – As associações de profissionais têm um papel fundamental e emblemático: a distribuição do conhecimento. As associações raramente geram conhecimento. Mas, o que fazem é, através de seus grupos de trabalho e profissionais voluntários, juntar as experiências e transformá-las em diretrizes de projeto, em manuais de boas práticas etc.
No Brasil, as associações produzem materiais técnicos num ritmo menor do que o visto nas associações internacionais. A Associação Internacional de Túneis tem uma preocupação constante de gerar documentos técnicos, para serem repassados, mesmo que de forma gratuita, para qualquer pessoa, porque o conhecimento tem que ser disseminado. Então, o emblema das associações é a troca de conhecimentos entre seus associados para melhorar a qualidade da engenharia no geral.
Mas, temos que melhorar a comunicação com nossos associados. No passado, a comunicação resumia-se em promover um congresso e em produzir livros e práticas recomendadas. Mas, hoje temos que descobrir novos meios de se comunicar com a nova geração, que é mais dinâmica e tem novas formas de receber a informação.
A comunicação tem papel fundamental, porque, para distribuir adequadamente o conhecimento, é preciso comunicá-lo bem.
Por outro lado, retornando ao começo de nossa conversa, temos, enquanto associação, que ter uma boa comunicação com a sociedade, os tomadores de decisão e os órgãos públicos, para lhes mostrar os aspectos positivos das obras de infraestruturas propostas. Hoje, não basta a comunicação adequada com os pares, mas é preciso a comunicação adequada para atingir o público em geral, para que, quando receberem um pacote de obras, eles tenham confiança na engenharia.

Ibracon – Por que as associações internacionais de profissionais são mais produtivas do que as nacionais?

PACHECO DE ASSIS – É uma questão cultural. Na Europa, a associação profissional é muito valorizada pelos próprios profissionais: existe uma simbiose entre seus interesses pessoais e seus interesses em divulgar seus conhecimentos para a sociedade. Na Ásia, as associações têm uma importância quase governamental: quando visitei a Rússia e o Japão como presidente da ITA, fui recebido pelo ministro de obras desses países, dada a importância que aquelas sociedades dão para as associações. Nesses países, quem faz a inscrição dos profissionais para participarem de congressos, como o Congresso Internacional de Túneis, são as associações de profissionais.
Já, na América do Norte, o pragmatismo dos americanos faz eles raciocinarem na conta do que eles darão e o que receberão das associações. Na América Latina, existe uma espécie de descrença em relação ao corporativo.

Ibracon – A engenharia nacional de fundações tem acompanhado o avanço tecnológico internacional? Quais máquinas, equipamentos e sistemas de última geração, mais sustentáveis, são promessas de futuro no país e no exterior? Quais já são realidade no Brasil? De uma maneira geral, como ocorre a transferência de tecnologia de fora para dentro do país?

PACHECO DE ASSIS – Do ponto de vista teórico, a engenharia de fundações foi o primeiro ramo da engenharia civil a se consolidar, chegando primeiramente nas escolas e nos livros, porque a demanda por fundações sempre foi muito grande, o que fazia valer a pena as pessoas estudarem o assunto. No Brasil, temos uma série de métodos que foram desenvolvidos por brasileiros, derivações de teorias mais generalistas, que são amplamente aplicados no país e no exterior. De modo que, o conhecimento teórico se consolidou há muito tempo e vem aumentando gradativamente suas fronteiras, sem avanços notáveis nos últimos anos. Agora, a área tecnológica de maquinaria tem avançado muito nos últimos anos. A introdução de novos equipamentos é a grande novidade. Há vinte anos, a escavação de uma fundação era manual: o profissional escavava o buraco e depois executava sua concretagem, para fazer o elemento de escavação. Hoje, temos máquinas escavadoras e cravadoras de estacas pré-fabricadas, que representam um avanço enorme, no Brasil e no exterior. Aqui, na ABMS, nosso grupo de Minas Gerais promove todo ano, no mês de outubro, um workshop dedicado às máquinas de cravação de elementos de fundação.
Mais recentemente, tivemos alguns aportes teóricos de teses desenvolvidas em universidades, onde houve uma mudança de enfoque: ao invés de pensar sobre os métodos tradicionais de cravação, desenvolveu-se uma teoria baseada na energia usada para cravar, para verificação de qual método funciona e qual não funciona.
Recentemente, uma tese de doutorado do engenheiro Carlos Medeiros ganhou a premiação concedida pela ABMS em 2012 (ver artigo nesta edição).

Ibracon – Quais as vantagens e desvantagens das fundações feitas de concreto? Como a evolução da tecnologia do concreto tem contribuído para o desenvolvimento do mercado das fundações no país?

PACHECO DE ASSIS – Pela parte das fundações escavadas e concretadas “in loco”, uma das grandes vantagens do concreto é que ele se molda ao terreno, que funciona como fôrma. Ao escavar um solo ou rocha, gera-se uma parede irregular, a qual é moldada integralmente pelo concreto, o que é bom porque não deixa vazio, mas é melhor porque aumenta a capacidade de interação entre o solo e a estrutura de fundação, contribuindo para uma capacidade maior de carga. Essa capacidade do concreto de se adaptar à escavação, como ocorre também com o concreto projetado em túnel (sobre as irregularidades da escavação em solo ou rocha, o concreto é projetado formando uma casca homogênea e perfeitamente integrada com o maciço) é uma característica que merece ser destacada.
No concreto cravado, a vantagem está no custo, comparada com as fundações metálicas; além da tradição do país em estacas de concreto, que não pode ser jogada fora.
A tecnologia do concreto tem evoluído muito e ajudado a engenharia de fundações. No caso das fundações moldadas “in loco”, ao mesmo tempo, existe a necessidade de um material plástico no momento de seu bombeamento para dentro do maciço e de um material resistente em seu estado endurecido. Essas são duas propriedades antagônicas, perfeitamente controláveis com o uso de aditivos, que possibilitam manter por mais tempo a plasticidade do material ou obter, por outro lado, um alto percentual de sua resistência aos 28 dias em poucos dias.

Ibracon – Há uma boa relação entre os geotécnicos e os tecnologistas?

PACHECO DE ASSIS – Creio que ainda não. Precisamos trabalhar mais próximos. De uma forma geral, os tecnologistas, os projetistas e os geotécnicos estão no mesmo produto, mas trabalham separadamente. A boa interação é muito mais pessoal (quando os profissionais são pessoas de mente aberta, capazes de enxergar os aspectos positivos da interação) do que social. As associações têm estreitado suas relações nos últimos anos, mas é preciso investir mais na inter-relação dos profissionais afins.

Ibracon – Do ponto de vista do avanço do conhecimento e da tecnologia sobre fundações de concreto no país, quais são os tipos de obras mais desafiadores, que impulsionam a expertise dos engenheiros geotécnicos? Como esses empreendimentos têm feito avançar a engenharia na área?

PACHECO DE ASSIS – Estamos numa fase desafiadora porque as obras hoje em dia deixaram de ser simples. Quando cruzo uma Serra do Mar, em que sou obrigado a ter túneis longos, com pilares de mais de 70 metros de altura e muito espaçados entre si, por causa das restrições ambientais, onde será preciso utilizar um concreto de alta resistência ou de alto desempenho, isto traz um desafio para o geotécnico, porque ele vai ter que projetar uma fundação de acordo com essas características da obra.
Veja a construção de barragens. As feitas nos anos 70 eram barragens nos melhores sítios geológicos. Hoje, as barragens são colocadas nos terrenos que restaram. Em Mato Grosso, existem barragens de concreto fundadas em areia – então, o geotécnico tem que ajudar aquela areia a dar suporte a uma estrutura de concreto, com injeção de calda de cimento no solo ou nas fissuras da rocha.
Hoje, as obras são complexas e a demanda é grande por obras de infraestrutura, exigindo mais dos tecnologistas, projetistas e geotécnicos, cada um tendo que “dar seus pulos”, como diz um colega. Portanto, a integração é fundamental para afinar as soluções otimizadas de engenharia.

Ibracon – No quesito normalização técnica, qual é sua avaliação das normas brasileiras de fundações? Elas têm acompanhado a evolução tecnológica e o conhecimento técnico na área? Como vê a participação das entidades nos trabalhos de normalização técnica no Brasil? Especialmente considerando as normas brasileiras de solos e de fundações, de que forma a ABMS participa desse trabalho?

PACHECO DE ASSIS – As normas de fundações estão bem atualizadas, mas as normas de solos experimentaram um retrocesso, porque eram muito antigas e não tiveram atualização, de modo que, neste momento, a ABNT está cancelando essas normas. Hoje, praticamente estamos sem normas de solo, que regula um trabalho importante.
A normalização é importante para uniformizar a linguagem, de maneira que, quando falo de uma propriedade, todos da área entendem a mesma coisa.
A ABMS dispõe de profissionais que trabalham conjuntamente com a ABNT toda vez que uma norma entra em processo de revisão, ou de cancelamento, ou de substituição etc. Neste momento, a ABMS e a ABEF (Associação Brasileira das Empresas de Fundações) estão trabalhando na revisão de um livro sobre fundações e participando da Comissão de Estudo da norma de tirantes, que envolve conhecimentos geotécnicos e de tecnologia do concreto, porque a maioria dos tirantes é ancorada às rochas ou solo através de caldas químicas ou de cimento.

Ibracon – No editorial do Prof. Antonio Figueiredo, da Escola Politécnica, nesta edição, ele chama a atenção dos geotécnicos para que, no ano que vem, quando a norma de fundações de concreto for atualizada, seja considerada a agressividade do meio para a dosagem do concreto da fundação, como forma de aumentar a durabilidade desses elementos. Você concorda com ele?

PACHECO DE ASSIS – Concordo. Existem muitos pontos na norma de fundações de concreto que precisam ser atualizados com o conhecimento de vanguarda. Mas, como a norma é um anseio da sociedade e dos profissionais representantes de segmentos do setor construtivo, nem sempre se chega num acordo e, quando se chega, na maioria das vezes não se nivela por cima, mas pelo “status quo”. Por isso, demora-se um pouco de tempo até que alguns avanços sejam incorporados.

Ibracon – Por fim, o que gosta de fazer em seu tempo de lazer? Quais seus hobbies?

PACHECO DE ASSIS – Eu tenho dois hobbies que me distraem de minha vida corrida e profissional. O que começou primeiro foi a fotografia, não só de tirar fotografias, mas também de mexer com suas imagens. Tenho bons equipamentos, tenho algum conhecimento – já fiz cursos e fui a algumas palestras. Fotografar me dá um grande prazer, estando ligado aos meus sentimentos. Mas, tudo de forma privada – o máximo que faço é passar para alguns amigos.
O outro hobbie, que é uma massagem para a alma, é a motocicleta. Viajo, pelo menos, uma vez por ano de moto com a esposa, filhos e amigos, para lugares bonitos. Como dizem: “As quatro rodas carregam o corpo, mas duas rodas transportam a alma”.


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