A ruptura do aterro de Itaquaquecetuba

terça-feira, 14 de junho de 2011 comentários

A ruptura do aterro de Itaquaquecetuba causou consequências como o deslocamento de massa de resíduos, lançamento de resíduos e chorume no Córrego Taboãozinho e deixou incertezas sobre eventuais perdas de vidas. Este é o assunto tratado no artigo escrito pela professora Maria Eugênia Gimenez Boscov, engenheira civil e livre docente em Obras de Terra e Geotecnia Ambiental na Escola Politécnica da USP, com colaboração de Marcos Massao Futai, presidente do Núcleo São Paulo da ABMS e professor do Departamento de Engenharia de Estruturas e Geotecnia e livre docente na mesma instituição. Veja o artigo.

Ruptura trouxe apreensão e dúvidas

A ruptura do Aterro Sanitário de Itaquaquecetuba em 25/4 deste ano provocou deslocamento de grande massa de resíduos, interdição de estrada vicinal, lançamento de resíduos e chorume no Córrego Taboãozinho e deixou incertezas sobre eventuais perdas de vidas. Houve também rumores sobre a ocorrência de uma explosão. As investigações sobre as causas da ruptura continuam. Persiste, enquanto isso, entre a população um clima de apreensão geral quanto à segurança dos aterros sanitários.

Localizado em Itaquaquecetuba e ocupando uma área de cerca de 1.000.000 m2, este aterro recebe diariamente duas mil toneladas de lixo da cidade e de outros de seis municípios (Poá, Suzano, Ferraz de Vasconcelos, Carapicuíba, Mairiporã e Arujá). 

Segundo a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB), publicada pelo IBGE (2010) com dados de 2008, 81,3% de todo lixo coletado no Brasil é depositado em aterros sanitários (64,6%) ou controlados (15,7%), e o restante (18,7%) vai para os lixões. Isto demonstra uma melhora expressiva da situação da destinação final do lixo coletado no país nos últimos anos. Dezoito anos antes, a PNSB mostrava que o percentual de municípios que depositavam seus resíduos de forma adequada era de apenas 23% (IBGE, 1990). Dez anos mais tarde, o percentual passou para 73% (IBGE, 2000).

O aterro sanitário é um sistema projetado e operado para a disposição ambientalmente segura de resíduos sólidos urbanos (RSU). Engloba, sempre que necessário, determinados componentes e práticas operacionais, tais como, a divisão em células, a compactação dos resíduos, cobertura, sistema de impermeabilização de fundo, sistemas de drenagem e tratamento para líquidos e gases, monitoramento geotécnico e ambiental. Deve ser, portanto, uma obra segura do ponto de vista ambiental e estrutural. 

O fato, no entanto, é que rupturas de aterros sanitários têm ocorrido ao longo dos anos. Exemplo recente foi a ruptura, em 2005, do aterro Leuwigajah, na Indonésia, envolvendo 2.700.000 m³ de RSU, que causou 147 mortes. Outro caso, este em 2007, envolveu o aterro Sítio São João, na cidade de São Paulo, mobilizando uma massa de 220.000 m³ de RSU, sem causar vítimas.

Os aterros sanitários podem romper por diversas causas. Entre os fatores mais comuns estão a capacidade de carga insuficiente do solo de fundação, a configuração incompatível com a resistência ao cisalhamento do maciço (taludes muito elevados e/ou inclinados), a pressão neutra elevada de chorume ou de gás (alteamento muito rápido, falhas do sistema de drenagem), entre outras. 

As causas da ruptura do Aterro Itaquaquecetuba não foram divulgadas publicamente. Não houve, tampouco, a apresentação de informações sobre sua operação e monitoramento. Aparentemente, a ruptura foi seca, ou seja, provavelmente não foi devida a excesso de pressão neutra de líquidos. A possibilidade de ter ocorrido uma explosão de gás, como noticiou a imprensa, é remota, uma vez que o ambiente dentro do maciço sanitário é anaeróbio. 

O barulho ou a sensação de explosão sentida pelos moradores nas vizinhanças do aterro pode ser atribuída à própria ruptura de grande massa. Não está descartada, no entanto, a culpa do biogás. Pode ter ocorrido aumento de pressões neutras dos gases gerados no interior do maciço pela decomposição dos RSU.

Esses acidentes chamam a atenção para a necessidade de projeto adequado dos aterros sanitários, consoante com a operação do aterro, e a necessidade também de monitoramento planejado de acordo com o projeto e a operação. Cabe ressaltar que muitos aterros sanitários brasileiros têm operado com satisfatório desempenho geotécnico e ambiental. A evolução dos conhecimentos sobre o assunto têm sido e devem continuar sendo pautados por debates entre projetistas, pesquisadores, consultores, empresas, gestores e órgãos de controle ambiental.

*Maria Eugênia Gimenez Boscov é engenheira civil formada pela Escola Politécnica da USP e livre docente em Obras de Terra e Geotecnia Ambiental na mesma instituição

* Marcos Massao Futai é presidente do Núcleo São Paulo da ABMS, professor do Departamento de Engenharia de Estruturas e Geotécnica da Escola Politécnica da USP e livre docente na mesma instituição.


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