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ABMS propõe comissão única para investigar causas da ruptura da barragem em Mariana (MG)

sexta-feira, 27 de novembro de 2015 comentários

aassis-internaA criação de uma comissão técnica de alto nível, com a participação de profissionais isentos e de inquestionável reputação ética e científica, é a proposta da ABMS para promover uma investigação profunda sobre as causas da ruptura da barragem do Fundão, ocorrida no último dia 5/11, em Mariana (MG), pertencente ao complexo da mineradora Samarco. Outro objetivo dessa comissão seria extrair desse acidente lições que possam levar ao aprimoramento da construção e da segurança de barragens. Na visão da ABMS, o Brasil deveria evitar a criação de múltiplas comissões para investigar o mesmo caso – o que traria mais calor do que luz. Veja mais detalhes neste Editorial assinado por toda a Diretoria da ABMS.

Editorial

“Desde o último dia 5 de novembro estamos assistindo a cenas muito tristes para a sociedade brasileira em geral, que vão desde a lamentável perda de vidas humanas, a destruição devastadora de povoados e de seus patrimônios histórico, cultural e social, os impactos ambientais de grande monta em valor e extensão, a interrupção de abastecimento de água de cidades importantes ao longo do vale do Rio Doce e incalculáveis prejuízos diretos e indiretos.

Tudo isso decorrente da ruptura da barragem do Fundão, pertencente ao complexo da mineradora Samarco, uma barragem de rejeitos, alteada pelo método de montante e que no momento estava sendo alteada mais uma vez, como preconizado pelo método em si, pela técnica de aterro hidráulico.

A barragem rompeu e seu próprio volume e grande parte dos rejeitos acumulados em seu reservatório percorreram os vales de jusante com grande impacto hidrodinâmico, e agora chegaram até o mar.

Nesse trajeto, o conteúdo da barragem deixou pelo caminho um rastro de lama e de destruição nas mais diversas esferas. Houve danos diretos, danos à saúde e segurança, impactos sociais, ambientais e na infraestrutura, além de danos às imagens das empresas envolvidas e da prática de engenharia e da nossa engenharia geotécnica.

Tão logo ocorrido o acidente, a ABMS já começou a se movimentar para que mais um acidente não passasse sem que lições fossem aprendidas e transformadas em diretrizes, recomendações e práticas de uma engenharia mais aperfeiçoada e com os níveis de responsabilidade adequados aos que a sociedade demanda.

Em um primeiro momento, no calor da tragédia, a ABMS pediu cautela aos nossos associados mais visados pela mídia, indicando apenas alguns nomes de notório saber na área para falar em nome da nossa Associação.

Apareceram nesse momento muitas informações erradas e especulações acerca das causas do acidente. No entanto, com o passar dos dias, os meios de comunicação deixaram de lado a busca apressada por culpados e passaram a mostrar real interesse pelas questões técnicas envolvidas no caso, como o tipo de estrutura, os métodos construtivos, os controles e riscos associados.

Entraram em cena nesse momento os profissionais efetivamente envolvidos na construção e segurança de barragens. Esclarecimentos foram apresentados à mídia, o que resultou em textos e reportagens mais assertivos.BentoRodrigues-home-Foto Rogério Alves-TV Senado

Aos poucos foi ficando claro para os jornalistas que a verificação das causas do acidente desta gravidade é um trabalho sério que exige a dedicação integral, por um período de alguns meses, de uma comissão de especialistas, isentos e com respeitabilidade nacional e internacional. Essa é uma prática adequada que tem sido usada em muitos países, tais como excelente relatório sobre o acidente ocorrido na barragem de Mount Polley, no Canadá, em 2014. Foto: Rogério Alves/TV Senado

O que a comunidade geotécnica e a sociedade brasileira esperam como lições deste acidente?

Espera-se, em primeiro lugar, que o acidente produza lições que possam ser incorporadas à engenharia, resultando na construção de estruturas mais seguras e que tenham seus riscos gerenciados de forma adequada. Isto é o que ocorre, por exemplo, com a aviação comercial. E a sociedade tem esta percepção.

A consequência de um acidente aéreo é sempre dramática, provocando muitas vezes a morte de todos os tripulantes e passageiros. No entanto, tem-se a certeza de que cada acidente aéreo – seja provocado por defeitos mecânicos, atos intencionais, erros humanos ou atentados terroristas – terá um relatório sério que chega até as causas. Os relatórios produzem, além disso, um resultado talvez ainda mais importante, que é a incorporação de correções ou a adoção de medidas que incrementam a segurança deste meio de transporte, hoje considerado o mais seguro que existe.

Na engenharia geotécnica também há muitos casos históricos, que hoje são frequentemente utilizados como exemplos da análise de causas, e que legaram grandes aprendizados hoje já incorporados à prática da engenharia. Só para ficar no universo das barragens, vale lembrar os casos de Vajont (Itália, 1963), Malpasset (França, 1959), Teton (EUA, 1976), dentre outras.

Para que os acidentes gerem lições, é necessário que as comissões de investigação técnica sejam reconhecidamente isentas e de notável capacidade, e que esqueçam empresas e pessoas por trás dos fatos, focando apenas nos fatos, nos métodos e nos processos de engenharia.

Um dos problemas que se tem no Brasil, e que é responsável pela não consolidação das causas e lições dos acidentes, é a falta de tradição da nomeação de uma única comissão de investigação técnica.

Diante de casos como a ruptura da barragem em Mariana, o que acaba ocorrendo é que cada órgão da sociedade quer nomear a sua própria comissão, assim como as demais partes interessadas do problema. Há comissões nomeadas pelo Ministério Público, pelo Ibama, pela Criminalística, pela empresa projetista, pelos construtores, pelo cliente, e assim vai.

Os resultados não são nada efetivos e não resultam em sugestões efetivas de melhorias e de solução de problemas. Há vieses de julgamento, resultados conflitantes, falta de um senso comum. O que fica, muitas vezes, são os achados, nem sempre isentos, do relatório mais popular na visão da mídia.

Por isso, a ABMS reforça a necessidade de buscar um termo comum entre as partes, que resulte na criação de uma única comissão de investigação técnica, para que suas conclusões tenham aceitação na sociedade e tragam lições para engenharia doravante a ser praticada.

O pior de um acidente é não aprender com ele

Mas, há uma lição que já pode ser tirada do caso Mariana. Um empreendimento de engenharia não pode mais ser visto apenas como a segurança da estrutura em si. É imprescindível estender o entendimento de suas consequências em caso de falha. Está cada vez mais claro que o corpo de engenheiros sempre pensa muito bem na segurança da estrutura e tende a achar que a probabilidade de falha é sempre baixa.

Ficou clara a dificuldade da engenharia em compartilhar com a sociedade seus eventuais potenciais de falhas, ao não informar os danos potenciais a jusante ou não instalar sistemas de alerta. Ou seja, era papel e missão da engenharia prover sempre uma estrutura segura. Por outro lado, a sociedade sempre pensa no pior, ou seja, que a ruptura é certa, e que o único cenário visível é o das consequências das tragédias.

No momento do impacto emocional, surgem propostas pouco razoáveis, como a de simplesmente fechar as mineradoras. Ninguém pensa, no entanto, em fechar fábricas de aviões ou de automóveis depois de um acidente envolvendo esses meios de transporte.

O denominador comum entre a engenharia e a sociedade é a análise e gestão de riscos, que congregam o potencial de falha das estruturas (toda estrutura de engenharia tem potencial de falha) e os impactos (danos) de uma eventual falha. É por esse caminho que a Nova Engenharia passa a agregar a Análise e Gestão de Riscos como elemento de decisão, o que permite, diante de cada caso, propor uma estrutura de engenharia com certo nível de segurança, considerando todas as possíveis consequências de sua eventual falha.

A ABMS ratifica sua confiança em nossa engenharia geotécnica. É preciso reconhecer que se houve uma falha é porque precisamos melhorar nossos padrões de engenharia. É preciso aprender com os acidentes e transformá-los em lições. E é preciso sermos transparentes com a sociedade sobre nossas estruturas e seus riscos. Por fim, vale sempre lembrar que o pior de um acidente é não aprender nada com ele”.

Diretoria da ABMS
Novembro 2015


Comentários


ABMS propõe comissão única para investigar causas da ruptura da barragem em Mariana (MG)

  1. Manuel de Almeida Martins disse:

    O Editorial da ABMS é oportuno, lúcido e instigante.
    Fazer acontecer o proposto é onde reside a dificuldade. No recente Simpósio sobre Segurança de Barragens e Riscos Associados, realizado em Porto Alegre de 26-27/11/2015 pelo CBDB, o assunto teve uma abordagem semelhante à da ABMS.

  2. Valeria disse:

    Artigo esclarecedor assinado pelo órgão competente. Isto permite o sentimento de esperança e confiança de melhoras no país a medida que as Instituições competentes se manifestam desta maneira.

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