Painel do Associado

Álvaro Rodrigues dos Santos defende debate público de temas geotécnicos

quinta-feira, 28 de novembro de 2013 comentários

Geólogo e autor de diversos trabalhos e artigos importantes para o meio técnico e para a sociedade brasileira, Álvaro Rodrigues dos Santos fala sobre a integração entre a Geologia de Engenharia e a Engenharia Geotécnica. Em entrevista exclusiva para a revista eletrônica e-ABMS, ele defende a participação ativa da comunidade científica no debate público de temas que envolvem questões geotécnicas, comos os deslizamentos de terras e as enchentes nas grandes cidades. Álvaro afirma que procura manifestar-se “em situações onde autoridades públicas ou privadas procuram aliviar-se de suas responsabilidades frente a graves problemas de ordem geotécnica levantando argumentos que sugerem o desmerecimento da colaboração e da atuação da Geotecnia brasileira.” Apaixonado pela profissão e pelo Brasil, o geólogo escreve, com frequência, artigos envolvendo a área da Geotecnia para publicações técnicas e grandes veículos. Para ele, esta é uma forma de tentar conscientizar a sociedade e incentivar a cobrança pelas medidas necessárias.

O geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos

Álvaro Rodrigues dos Santos é formado em Geologia pela Universidade de São Paulo. Atuou no Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT) como pesquisador sênior, diretor de Planejamento e Gestão do IPT e diretor da Divisão de Geologia. No DCET (Departamento de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo), exerceu a função de diretor geral. Na iniciativa privada, passou por empresas como CNEC, Brasconsult e Zuccolo. Com vasta experiência profissional em Geologia de Engenharia aplicadas a obras e ao uso e ocupação do solo, Álvaro é autor de inúmeros trabalhos técnico-científicos e dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Cubatão”, “Diálogos Geológicos” e “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”. Criador da técnica Cal-Jet de proteção de solos contra a erosão, recebeu o Prêmio Ernesto Pichler da Geologia de Engenharia brasileira no ano de 2011. É o atual diretor-presidente da ARS Geologia Ltda.

Leia a íntegra da entrevista com Álvaro dos Santos, associado à ABMS.

e-ABMS: Qual é a importância da Geologia de Engenharia para a Geotecnia? Quão relevante é a integração entre os profissionais das duas áreas?
Álvaro dos Santos: É preciso considerar que a Geologia de Engenharia é parte integrante da Geotecnia, aliada às suas irmãs siamesas, a Mecânica dos Solos e a Mecânica das Rochas. Partindo do entendimento que a missão básica da Geologia de Engenharia é oferecer à Engenharia Geotécnica o quadro completo dos fenômenos geológico-geotécnicos ocorrentes ou que podem potencialmente ser esperados da interação entre as solicitações próprias de um empreendimento e as características geológicas (materiais e processos) dos terrenos que serão por ele afetados, compreende-se a importância dessa geociência aplicada. A esse quadro fenomenológico, a Geologia de Engenharia adiciona, já no âmbito de uma integração cooperativa completa com a Engenharia Geotécnica, suas sugestões de cuidados e providências que projeto e obra deverão adotar para ter esses fenômenos sob seu total controle.

e-ABMS: Existe alguma outra área que mereça destaque nesta relação com a Geotecnia?
Álvaro dos Santos: Do ponto de vista do mais preciso e pleno exercício da Geologia de Engenharia hoje eu não tenho dúvida alguma em afirmar que a Geomorfologia é imprescindível e preciosa. Uma vez que a paisagem geomorfológica de uma determinada área é o resultado do embate, ao longo do tempo geológico, entre os processos da Dinâmica Interna (forças e agentes internos do planeta) com os processos da Dinâmica Externa (forças e agentes externos ao planeta – condições meteorológicas e climáticas, a composição da atmosfera, a própria ação da vida), conclui-se que saber “ler” o relevo, em suas formas e processos, diz muito, às vezes tudo, sobre como aquela área responderá de imediato e ao longo do tempo às solicitações impostas por algum tipo de intervenção humana. E se a Geomorfologia é fundamental para a Geologia de Engenharia, igualmente fundamental ela será para a Geotecnia.

e-ABMS: Em quais aspectos a Geologia de Engenharia pode ‘ajudar’ a Geotecnia e vice-versa?
Álvaro dos Santos: Uma das maiores responsabilidades da Engenharia Geotécnica, pela qual terá segurança do sucesso técnico de suas ações, é o zelo especial com que deverá perseguir a plena compatibilidade e solidariedade entre as soluções adotadas e os fenômenos geológico-geotécnicos a que se relacionam. Daí a importância de um trabalho interativo e colaborativo com a Geologia de Engenharia.

e-ABMS: Você escreve muitos artigos sobre temas polêmicos. Qual é o principal objetivo desta iniciativa?
Álvaro dos Santos: Não me considero um polemizador por excelência. Mas percebo que minha paixão por minha profissão e por meu país tem me levado, com alguma frequência, a manifestar-me em situações onde autoridades públicas ou privadas procuram aliviar-se de suas responsabilidades frente a graves problemas de ordem geotécnica levantando argumentos que sugerem o desmerecimento da colaboração e da atuação da Geotecnia brasileira.

Vivemos em um país maravilhoso, mas convivemos com problemas que há muito deveríamos e poderíamos ter superado. Entre eles, muitos relacionados à nossa área de atuação profissional. Só não os superamos ainda porque prevalecem em nossa cultura política e em nossa administração pública objetivos muito diversos daqueles voltados a bem servir a sociedade. Estou convencido que somente uma maior consciência dessa sociedade sobre a real natureza desses problemas terá o poder de, em não se deixando tão facilmente enganar, forçar a tomada de decisões tecnicamente corretas, com calendários de implementação independentes de interesses eleitorais menores. Muitos artigos meus perseguem esse objetivo. Procuro elaborá-los com muito cuidado em relação ao seu conteúdo didático.

Por outro lado, e aí penso em meus artigos e livros essencialmente técnicos, voltados ao nosso próprio ambiente profissional, tenho-os como uma obrigação ética, pois desde o primário estudei em escolas públicas gratuitas, ou seja, tive toda minha educação proporcionada pelo sofrido povo brasileiro. Expor publicamente os conhecimentos e experiências que consegui desenvolver e reunir ao longo de minha vida é o mínimo que posso fazer em retribuição a tal sacrifício. E o retorno que tenho dos meus textos, posso resumir, é o prêmio mais gratificante com que venho sendo aquinhoado em minha vida.


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