As razões da “Carta Manifesto” formulada pela comunidade técnica brasileira

quarta-feira, 01 de novembro de 2017 comentários

Os principais analistas do cenário econômico brasileiro reconhecem que o País deixou a recessão para trás e está dando início a um novo processo de desenvolvimento. Estimam esses especialistas que o PIB, o Produto Interno Bruto, deve crescer cerca de meio ponto percentual neste ano e 2,5% em 2018. É muito pouco, naturalmente, para superar a estagnação dos últimos anos. Mas esse movimento de retomada abre ao País uma “janela de oportunidade” que lhe permitirá, quem sabe, caminhar na direção correta de agora em diante, com um mínimo de planejamento, racionalidade e transparência. Essa é a avaliação do presidente da ABMS, Alessander Kormann, apresentada neste Editorial da revista e-ABMS. Leia a íntegra do texto a seguir.

“É preciso mudar a mentalidade que orienta a concepção e implantação das grandes obras de infraestrutura no Brasil. Precisamos de planejamento. E planejamento feito em bases técnicas, orientado pelos interesses superiores da Nação. Não é mais aceitável que o planejamento inexista, ou quando feito, privilegie determinados setores e grupos econômicos, atropelando a boa engenharia e a racionalidade.

Planejar e investir em infraestrutura representa condição básica para que o avanço em diversas atividades econômicas converta-se efetivamente em ganhos de produtividade e competitividade nacional e internacional. Além disso, obras de infraestrutura que apoiam o desenvolvimento regional representam elementos de integração, permitindo que as riquezas produzidas sejam distribuídas de modo mais homogêneo pelas regiões brasileiras.

Infelizmente, em um momento de retomada econômica como no caso atual, vê-se o setor de engenharia consultiva e de projetos desarticulado, com empresas à míngua, desequipadas, fechadas e a cadeia de prestação de serviço desmobilizada, com profissionais do setor alocados em outras atividades econômicas. Estamos assistindo no país a uma crescente desnacionalização da infraestrutura e da engenharia nacionais. Essa situação é ruim não apenas para a área de engenharia consultiva, mas para o Brasil como um todo, pelo caráter estratégico que a atividade representa ao desenvolvimento e soberania nacionais.

É preciso agregar transparência e inteligência aos processos licitatórios. Promover estudos prévios de viabilidade, estudos de impacto ambiental. É necessário realizar projetos básicos e projetos executivos de alta qualidade – o que poucas vezes acontece hoje. É preciso promover todas as etapas necessárias às várias modalidades de licenciamento.

E todo esse processo saudável começa com um bom e adequado planejamento. É preciso reafirmar, mais uma vez, que essa atividade é essencial para o aproveitamento correto e racional dos recursos escassos da sociedade. Além disso, os estudos e projetos de engenharia têm custos baixos e representam pequena fração dos investimentos finais de empreendimentos e obras.

Quando realizados com a devida antecedência, por meio de um planejamento rigoroso e transparente, os projetos e estudos preliminares contribuem efetivamente para reduzir os riscos e os custos das obras, trazendo, em consequência, ganhos incontestáveis para a sociedade.

A busca cega pelo menor preço, na fase de planejamento e na de execução, produz obras ruins, mal planejadas, que envelhecem rápido e que na realidade acabam por custar bem mais em consequência dos muitos aditivos. Exemplos estão à vista de todos.

Este é, em resumo, o espírito da “Carta Manifesto” preparada pela ABGE e ABMS e divulgada em setembro deste ano. O documento recebeu expressivo apoio de inúmeras e importantes entidades do meio técnico, numa demonstração de que essa percepção está amplamente disseminada em nossa comunidade de especialistas.

Mas é preciso seguir adiante, é preciso fazer mais. E, para isso, as duas entidades e todas as que apoiam a “Carta Manifesto” irão realizar um workshop em São Paulo, que contará com a participação inclusive de nomes de fora da comunidade técnica.

Marcado para o dia 22 de novembro, das 8h às 12 horas, o evento vai reunir no auditório da ABMS urbanistas, historiadores e advogados, além dos associados às entidades que apoiam nosso documento.

Não temos a ilusão de que sairemos do encontro com as soluções prontas e escritas. Haveremos de caminhar muito ainda para isso. Mas é um sinal positivo que a nossa comunidade técnica tenha tido a coragem de erguer uma bandeira, procurando mobilizar a sociedade brasileira em favor de uma nova mentalidade a ser adotada para o planejamento da infraestrutura em nosso país.

Muito obrigado. Contamos com a sua presença no workshop de 22 de novembro. Até lá!”

Alessander Kormann
Presidente da ABMS

 


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