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Comunidade técnica se manifesta a respeito do fechamento do LCEC

quinta-feira, 28 de novembro de 2013 comentários

O mês de novembro de 2013 trouxe à comunidade técnica uma triste notícia: após 40 anos de atividades em pesquisas, ensaios técnicos, investigações, consultoria e fiscalizações de obras, o Laboratório de Engenharia Civil da Companhia Energética de São Paulo, um dos mais importantes centros de pesquisas do país, seria fechado no dia 4 de novembro. Localizado na cidade de Ilha Solteira, no interior de São Paulo, o LCEC prestou serviços importantes às obras da usina hidrelétrica de Ilha Solteira e outras construções, além de ter contribuído com estudos inovadores para o desenvolvimento da infraestrutura do Brasil.

Em nota, o presidente da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental (ABGE) e associado à ABMS, João Jerônimo, trouxe a notícia às entidades irmãs, inclusive à ABMS. De acordo com a nota enviada por Jerônimo, o acervo de estudos e pesquisas realizadas pelo laboratório estaria perdido com o seu fechamento. “Este acervo abriga critérios de projeto e relatórios técnicos das mais importantes barragens construídas no Brasil”, declara Jerônimo.

Passado VS Presente

O Laboratório Cesp de Engenharia Civil de Ilha Solteira foi criado no final da década de 1960 com dois departamentos principais: Engenharia Civil e Eletromecânica. “O departamento de Engenharia Civil desenvolvido para Ilha Solteira era dividido em áreas, como de solos, de concretos, de tecnologia, geologia e mecânica das rochas, de instrumentação e de segurança de barragens”, conta Jerônimo. “Eu estagiei no Departamento de Engenharia Civil do Laboratório de 1971 a 1977. Lá, a equipe fazia todo o acompanhamento e fiscalização das obras da usina hidrelétrica de Ilha Solteira, desde o projeto, as pesquisas e ensaios de qualidade, além do desenvolvimento dos testes de concreto e da investigação dos solos”.

Mais tarde, o Laboratório passou a atender outras obras da Companhia Energética de São Paulo, chegando a ser denominado “Laboratório Central de Engenharia Civil”. “Outras regiões do país pediam apoio ao Laboratório, como nas obras da usina hidrelétrica de Itaipu e Tucurui”, conta Jerônimo.

Equipado com modernas instalações e equipamentos, as atividades do Laboratório perduraram ao longo dos anos. “Enquanto estive lá, acompanhei pesquisas importantes e o desenvolvimento de tecnologias inovadoras, principalmente em mecânica das rochas”, comenta. “Vi a equipe do Laboratório desenvolvendo grandes ensaios sobre as rochas para determinar as características mecânicas de resistência do maciço rochoso. Acompanhei também as tecnologias de desenvolvimento e aprimoramento do uso de posolana, uma argila calcinada que reduz o consumo de cimento e aumenta a resistência do concreto”.

Para Jerônimo, o Laboratório de Ilha Solteira era referência nacional e mundial em desenvolvimento tecnológico para usinas hidrelétricas e projetos de construção. “Foi um dos lugares onde a engenharia brasileira em hidrelétrica atingiu seu mais alto grau de especialização comparado ao mundo todo”.

E toda a expertise das atividades dos laboratórios se justificava pelo árduo trabalho dos técnicos. “A equipe de profissionais era sedenta por inovação. Eram verdadeiros pesquisadores. Lá se disseminava e se praticava a cultura de investigação, o que atualmente é cada vez mais raro na engenharia brasileira”, afirma o presidente da ABGE.

Com o passar dos anos, no entanto, a demanda pelos serviços oferecidos pelo Laboratório começou a diminuir. De acordo com João Jerônimo, uma possível explicação seria a negligência do mercado da construção civil com a qualidade das obras. “A perda de qualidade, em contrapartida, vem em decorrência da pressa por terminar os projetos. Muitas vezes, as empresas enfrentam negociações demoradas para depois terem de entregar as obras em prazos curtíssimos. Nisso, os responsáveis pelas obras optam por economizar tempo e dinheiro em estudos e pesquisas, o que é gravíssimo”, comenta. “Para se ter uma ideia, muitas vezes as exigências se concentram mais durante o processo de licenciamento ambiental de uma obra do que no desenvolvimento do seu projeto”.

Jerônimo lembra ainda que, atualmente, as recomendações repassadas durante as vistorias nas obras nem sempre são seguidas. “Quando a usina hidrelétrica de Ilha Solteira era vistoriada pelos consultores do Banco Mundial, que financiou a obra, o Laboratório de Engenharia Civil cumpria à risca todas as recomendações. Hoje em dia, não é raro essas recomendações simplesmente não saírem do papel”, declara.

Desativação

De acordo com a nota divulgada pela ABGE, as instalações do Laboratório Cesp de Engenharia Civil estão sob os cuidados de uma equipe de seguranças. No começo do mês de novembro, os 45 funcionários em atividade no Laboratório aderiram ao programa de demissão voluntária instaurada pela Cesp (saiba mais aqui). Com isso, as atividades do Laboratório foram interrompidas por falta de funcionários, sendo as instalações utilizadas por alguns estudantes e professores em fase de término de trabalhos e pesquisas técnicas.

Negociações

Durante as negociações para determinar o destino do Laboratório, o Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) de Ilha Solteira demonstrou interesse em se tornar o responsável jurídico pelo acervo e pelas instalações do laboratório. “A Unesp utilizaria o laboratório para realizar aulas práticas durante os cursos de graduação e permitiria aos cursos de pós graduação, mestrado e doutorado o desenvolvimento de pesquisas”. De acordo com Jerônimo, no entanto, a proposta de um novo quadro de funcionários que gerenciariam as atividades do laboratório foi recusada. “Administração do Governo do Estado demonstrou resistência com a ideia da criação da abertura de novas vagas públicas para a contratação de funcionários para o Laboratório”, explicou o presidente da ABGE.

“Estamos enfrentando uma fase muito complicada sobre a qualidade dos projetos e das obras de infraestrutura do país”, diz. “Por isso ainda temos esperanças que haja uma solução para o não fechamento do Laboratório. Lá estão experiências e estudos valiosos demais para serem perdidos”, declara João Jerônimo.


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