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Ennio Palmeira e Nilo Consoli estão entre os mais influentes cientistas do mundo

quarta-feira, 09 de dezembro de 2020 comentários

Pesquisa da Stanford University (EUA) divulgada no mês passado apresentou um ranking com os mais influentes cientistas e pesquisadores do mundo, divididos pelas principais áreas e subáreas do conhecimento. Entre os 2% mais influentes em Geotecnia estão dois brasileiros – Ennio Marques Palmeira, professor da Universidade de Brasília (UnB), e Nilo Cesar Consoli, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Há, entre os dois pesquisadores, vários pontos em comum. Ambos conviveram na graduação com professores inspirados e inspiradores, que deixaram lições. Foi o caso de Fernando Emanuel Barata (ex-presidente da ABMS) para Ennio Palmeira. No caso de Nilo Consoli, as principais referências foram Jarbas Milititsky (ex-presidente da ABMS) e Fernando Schnaid (presidente eleito da ABMS para o biênio 2021/22). E há outras semelhanças.

A carreira acadêmica em instituições internacionais de ponta é outra característica compartilhada pelos dois pesquisadores. Depois de concluir graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-graduação na Coppe-Rio, Palmeira fez doutorado na University of Oxford, no Reino Unido, e estágio de pós-doutorado na University of British Columbia, no Canadá. Hoje ele é professor titular da Universidade de Brasília (UnB).

Consoli graduou-se em Engenharia Civil na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e mestrado na PUC-Rio. Realizou seu doutorado na Concordia University, em Montreal, no Canadá, e pós-doutorado na University of Oxford e na University of Western Australia. Hoje é professor titular da UFRGS e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da mesma instituição.

O engajamento de ambos em relação às pesquisas e aos estudos de aperfeiçoamento é comum aos pesquisadores de ponta. Do ranking dos mais influentes da pesquisa(1) estão nomes excepcionais, com trajetórias bem-sucedidas tanto no campo acadêmico quanto na carreira profissional. Nesse elenco estão Harry Poulos, que recentemente participou de palestra online da ABMS, Mark Randolph, James Mitchell, Kerry Rowe, John Burland, Guy Houlsby, Eduardo Alonso, Norbert Morgenstern e M. Jamiolkowski.

A inspiração para seguir o caminho do estudo contínuo veio de boas fontes, conta Nilo Consoli. “Jarbas Militistsky, um dos meus professores de graduação, dizia que um ano intenso de estudos em uma pós-graduação valia mais do que 10 anos de prática”, lembra. “Se levarmos em conta só a experiência do dia a dia, acabamos por repetir as coisas já aprendidas, inclusive os erros.”


Publicação de trabalhos

Outra atitude importante de um pesquisador que ambiciona ocupar um papel de destaque em sua área de atuação é buscar sempre a publicação de trabalhos e pesquisas em revistas com boa reputação técnica e científica no plano internacional. Nilo Consoli (foto à esquerda) dá um exemplo:

Como se faz para publicar um trabalho numa revista importante como a Géotechnique (2), a principal revista de Geotecnia do mundo? Os trabalhos apresentados são avaliados pelos melhores do mundo na área – duas ou três pessoas escolhidas ‘a dedo’, justamente aquelas que mais conhecem aquele assunto. É o chamado ‘peer review’ (revisão pelos pares). A ideia é que se tenha um olhar crítico para o trabalho. Se passar por essa crítica é porque o trabalho é muito bom. Esse é o conceito fundamental.

Nilo Consoli

Consoli entende que os geotécnicos brasileiros precisam embarcar nessa onda e aceitar com mais naturalidade o peer review. Só assim os trabalhos deles vão aparecer para o mundo ou, eventualmente, merecer comentários críticos que possam levar os autores a apresentar mais tarde uma versão melhorada do paper.

Diz o engenheiro: “A métrica para verificar a qualidade de um trabalho é saber se ele foi publicado em boas revistas e se obteve citações em grande número; quando isso acontece é porque outras pessoas estão utilizando o trabalho para poder avançar ainda mais no conhecimento daquele tema”.

Os dois pesquisadores têm mais de 600 trabalhos publicados.


Inovação e novos materiais

Ennio Palmeira e Nilo Consoli compartilham, talvez não por acaso, outra característica comum. Eles trabalham com linhas inovadoras de pesquisas, com novos materiais ou com materiais que muitas vezes são considerados lixo ou resíduos não aproveitáveis.

Palmeira trabalha há 42 anos com geossintéticos – um segmento em que a inovação está no DNA, está na origem. Daí a crescente presença dos geotêxteis nas mais diversas etapas da construção civil. Ele explica:

O crescimento de utilização de geossintéticos vai se dando na medida em que novos produtos vão aparecendo e resolvendo problemas que não eram fáceis de resolver no passado, ou desenvolvendo produtos com propriedades melhoradas.

Ennio Palmeira

A atenção com a proteção do meio ambiente faz parte do trabalho daqueles profissionais que recorrem aos geossintéticos para diversas soluções geotécnicas. É cada vez mais comum a associação dos geossintéticos com materiais de construção alternativos, garrafas PET prensadas, resíduos de construção, resíduos de mineração, pneus inteiros, pneus picados.

Com as técnicas atuais é possível incorporar esse conjunto (geossintéticos mais resíduos e materiais de construção alternativos) em sistemas de drenagem, estruturas de contenção reforçadas, aterros para pavimentos, colchões drenantes. E o que é melhor, esse uso permite economizar recursos naturais substituindo areia, brita e cimento Portland por outras alternativas que não demandam acesso a jazidas minerais.

Inovações tecnológicas não cessam de aparecer no mercado, lembra Ennio Palmeira. Já há geossintéticos que permitem a passagem de corrente elétrica, favorecendo o adensamento de solo mole por eletrosmose, um processo estabelecido há décadas e que havia sido abandonado pelo custo elevado e pela corrosão de elementos metálicos então utilizados. Com esses plásticos que permitem passagem de corrente elétrica, a eletrosmose ressurgiu das cinzas.

Com as novas descobertas na área da ciência dos materiais, como o grafeno, as possibilidades se ampliam enormemente, lembra Palmeira. “As perspectivas no futuro com o avanço desses novos materiais é eles serem incorporados cada vez mais aos geossintéticos, gerando produtos com potencial de utilização bem maior, com propriedades melhores, expandindo, enfim, a área de aplicação desses materiais”.



Barragens de rejeitos de mineração

Tema atualíssimo, a descaracterização das barragens de resíduos de mineração com alteamento a montante é tema de pesquisa recente do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil (PPGEC) da UFRGS. Associado a isto, o PPGEC vem pesquisando o uso de novos materiais cimentantes (desenvolvidos a partir de rejeitos), em substituição ao cimento Portland, para possível utilização no empilhamento de misturas rejeitos de mineração-cimentos sustentáveis em grandes pilhas que podem chegar até a 300 metros de altura. Tudo isso ainda está em estudos para o desenvolvimento de processos seguros de disposição dos rejeitos de mineração, de custo reduzido e com viés sustentável.

Consoli lembra que, na área de melhoramento de solos, o grupo da UFRGS é um dos melhores do mundo. Esse trabalho de melhoramento serve aos mais genéricos usos possíveis – para aterros, fundações, entre outros. A reputação desse grupo tem sido construída com pesquisa, estudo, uso dos novos conhecimentos na solução de problemas geotécnicos e trabalhos publicados e reconhecidos pelos pares.


Pesquisa e Inovação juntas em favor do país

Para o presidente eleito da ABMS, Fernando Schnaid, os dois pesquisadores, cujo trabalho foi reconhecido pela pesquisa de Stanford, levam em conta as demandas e as necessidades da indústria da construção civil e dos setores de infraestrutura. Ambos os cientistas buscam a união entre teoria e prática, perseguem a inovação contínua e pesquisam sempre novos métodos, tecnologias e práticas – tudo em favor do desenvolvimento sustentável e da expansão do conhecimento técnico e científico.

“É motivo de orgulho para a ABMS e para a engenharia geotécnica brasileira contar com dois associados entre os expoentes da área em todo mundo”, afirma Alexandre Gusmão, presidente da ABMS. “Esperamos que o exemplo de Ennio Palmeira e Nilo Consoli sirva de estímulo aos jovens geotécnicos para que levem adiante o trabalho de expansão da pesquisa e do conhecimento técnico e científico”.



Notas

(1) Acesse aqui todos os dados da pesquisa da Stanford University https://data.mendeley.com/datasets/btchxktzyw/2

(2) Fundada em 1948, a Géotechnique é a principal revista de Geotecnia do mundo, publicando pesquisas da mais alta qualidade em todos os aspectos da engenharia geotécnica. A publicação fornece acesso a pesquisas e trabalhos práticos rigorosamente avaliados, atuais, inovadores e confiáveis, nas áreas de mecânica de solos e rochas, geologia de engenharia e ambiental. https://www.icevirtuallibrary.com/toc/jgeot/current


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