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Entidades técnicas propõem desenvolver potencial hidrelétrico brasileiro

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014 comentários

Sete tradicionais entidades(*) da comunidade técnico-científica brasileira enviaram carta aberta à presidente Dilma Rousseff propondo uma ampla revisão da política de energia seguida hoje pelo país, que tem proporcionado a gradual ampliação da oferta de energia térmica em detrimento da geração hidrelétrica.

Na visão dessas entidades, que reúnem engenheiros, geólogos de engenharia e outros profissionais do setor de infraestrutura, o país não está aproveitando o seu potencial de geração de energia hidrelétrica, estimado em 246 Gigawatts – dos quais só um terço é aproveitado.

“O Brasil vem gradualmente substituindo energia barata, limpa e renovável, fornecida pelas hidrelétricas, por energia cara e poluente, produzida pelas usinas térmicas”, aponta o engenheiro André Assis presidente da ABMS (Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica), uma das sete entidades signatárias do documento. “É um contrassenso alimentado por uma visão distorcida quanto ao real papel das hidrelétricas com grandes reservatórios”.

No documento, as entidades sustentam que “a construção de hidrelétricas enfrenta sistemática oposição por parte de grupos organizados nacionais e estrangeiros que alegam, com base em argumentos técnicos discutíveis, que esses empreendimentos causam impactos socioambientais que se sobrepõem aos benefícios que eles podem propiciar ao País”.

Como efeito dessa forte oposição, o país vem optando pela construção de usinas hidrelétricas a fio d’água, que não usam grandes reservatórios e que não permitem, por isso, o pleno aproveitamento do potencial de geração de energia nos diversos projetos, entre outros benefícios.

No documento, as entidades lembram que a “diminuição do tamanho dos reservatórios tem entre suas principais consequências o subaproveitamento da capacidade de produção de energia elétrica do País” e o consequente recurso à energia gerada pelas usinas térmicas. O recurso às térmicas custou 12 bilhões de reais ao País em 2013, aponta o texto.

O crescente protagonismo do parque gerador térmico, em detrimento das hidrelétricas, irá produzir consequências nefastas no plano socioambiental, acreditam as entidades. Além de gerar energia a um preço muito mais elevado, as usinas térmicas poluem a atmosfera e geram gases de efeito estufa.

As entidades signatárias da Carta descrevem no documento os benefícios dos grandes reservatórios das usinas hidrelétricas: geram energia barata, limpa e renovável, com efeitos benéficos em diversas áreas. Permitem armazenar água nos períodos úmidos para posterior uso nos período secos. Favorecem o controle de enchentes, o transporte hidroviário, a piscicultura, o turismo.

“As usinas hidrelétricas com reservatórios de acumulação construídas no século passado, e que estão em operação até hoje, têm papel fundamental na segurança e na estabilidade do sistema elétrico nacional”, sustenta o documento.

Um dos articuladores da Carta, o professor Alberto Sayão, da PUC-Rio, que foi presidente da ABMS, lembra que parte importante do potencial hídrico brasileiro está na Amazônia e poderia servir para ajudar no equilíbrio do parque gerador instalado nas outras regiões do país. O fac-símile da carta segue aqui.

“Veja o que acontece hoje. Os reservatórios das regiões Sul, Sudeste e Nordeste, cujo nível está abaixo do esperado e do desejável, poderiam ser ‘ajudados’ por grandes reservatórios da região amazônica, que não sofre falta de chuva neste verão”, argumenta Sayão.

“A Carta de 2008, cuja íntegra segue aqui, foi um alerta. Conseguimos sensibilizar o Congresso e o Executivo para a importância da aprovação de uma regulamentação para esse setor. Nossa expectativa agora, com essa nova Carta Aberta, é abrir o debate e mostrar à sociedade que o pleno aproveitamento da geração hidrelétrica é essencial para atender ao desenvolvimento nacional  e ao progressivo aumento da demanda por água e energia nas próximas décadas”.
Para Sayão, o Brasil não pode abandonar esse vasto potencial de gerar energia limpa, barata e renovável em proveito da geração térmica – que é cara e poluente. “É uma troca que não tem nenhum sentido técnico, econômico, nem ambiental”.

 


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