Marcos Massao Futai dá verdadeira aula sobre escorregamentos

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014 comentários

No dia 26 de novembro de 2014, o professor Marcos Massao Futai, da Escola Politécnica da USP e ex-presidente do Núcleo Regional São Paulo da ABMS, apresentou a palestra “Efeitos de chuvas extremas: da condição geológico-geotécnica e de saturação nos escorregamentos rasos que ocorrem em situações de desastres”. Com o apoio da Comissão Técnica de Taludes da ABMS, a palestra foi realizada na sede da entidade, em São Paulo, e contou com a participação de 35 pessoas.

 

“O objetivo da palestra foi apresentar ao público subsídios para entender porque ocorrem escorregamentos rasos generalizados em situação de chuvas extremas”, explicou Futai. A razão disso é que, para o professor, a comunidade técnica em geral sabe pouco a respeito dos processos que provocam esses escorregamentos que tanto causam problemas para a população, para a economia e para o meio ambiente.
“Por isso, entender os mecanismos de escorregamentos envolvidos poderá ajudar em estudos de prevenção”, diz. “Aparentemente, desastres em decorrência de chuvas intensas têm se tornado mais frequentes. A sociedade precisa estar preparada para tratar desse problema de forma mais racional”.

 

Após a palestra, o público presente fez diversas perguntas a Futai. “Os questionamentos demonstraram que houve muito interesse em saber como realizar as previsões para análise de possíveis áreas que podem estar sujeitas e desastres”, comentou o ex-presidente do NRSP.

 

Pontos abordados

 

A palestra foi dividida em três partes. A primeira abordou questões gerais sobre desastres naturais incluindo efeitos de chuvas extremas e de mudanças climáticas. Já na segunda, Futai deu exemplos de estudos de dois casos de desastres envolvendo escorregamentos rasos generalizados: na Serra de Cubatão, em São Paulo (em 1985) e na Região Serrana do Rio de Janeiro (em 2011). O último momento da palestra explicou os movimentos pós-escorregamento que evoluem para corridas de lama.
“É importante destacar que foram apenas apresentadas análises de condições típicas, além de ter sido citado que ocorrem vários tipos de movimento de massa em situação de desastre, mas não foram analisados mecanismos de escorregamentos mais específicos tais como: debris flow, subpressão, fluxo em meios fraturados, quedas de blocos, fluxo barrado por diques etc”, esclarece Marcos Futai.
Serra de Cubatão e Região Serrana do Rio de Janeiro

 

Na palestra, Futai mostrou que as encostas que sofreram os escorregamentos rasos generalizados na Serra de Cubatão são muito mais íngremes – 40° em média – que na região Serrana do Rio de Janeiro – com 20°. “Por outro lado, a chuva média anual é muito maior na Serra de Cubatão, o que seria uma inconsistência numa comparação direta simplória”, explicou o professor, que usou dados de permeabilidade ao longo da profundidade referente às condições geológicas locais usados para definir as condições de contorno em simulações numéricas. “Esses dados foram fundamentais para explicar os mecanismos que ocorreram em cada um desses desastres”.
O palestrante também apresentou simulações numéricas de infiltração da água da chuva, considerando a interação solo-atmosfera ao longo de anos. Essas análises foram associadas com as condições geotécnicas, que definem o regime de fluxo subterrâneo, e com análise de estabilidade. “No caso de Cubatão, foi mostrado que na condição específica da área afetada em 1985, o fluxo é vertical, tal como apresentado por Wolle na década de 80”, comentou o professor.
“Porém, as análises mostraram que, ao longo de 1984, as encostas estavam estáveis e que exatamente no dia 22 de janeiro o fator de segurança começa a baixar culminando no escorregamento do dia 23”, disse. “O solo fica quase todo tempo em condição não saturada e apenas em condição de chuva extrema há saturação. Praticamente não há variação da distribuição de pressão de água nos poros em função da geometria da encosta.”
“No caso dos escorregamentos na Região Serrana do Rio de Janeiro, foi considerado um meio menos permeável com a profundidade, até atingir uma situação impermeável. As simulações de fluxo mostraram que em quase todo ano de 2010 as encostas permaneceram não saturadas”, esclareceu Marcos Futai. “Já no final de dezembro de 2010, houve formação de um pequeno nível freático no contato impermeável nas encostas menos íngremes. As chuvas extremas que ocorreram entre os dias 11 e 12 de janeiro de 2011 alteraram completamente o fluxo de água nas encostas”.
“Ocorreu rápida elevação do nível freático nas encostas menos íngremes até coincidir com o nível do terreno (20º) e a análise de estabilidade indicou que, nessa situação, essas encostas teriam escorregado. Nas encostas com 30º de inclinação, o escorregamento teria ocorrido mesmo antes que o nível freático tivesse se elevado ao máximo. E nas encostas de 40º, as encostas poderiam ter escorregado por redução de sucção e, caso a resistência fosse maior, poderia ter ocorrido elevação do nível freático para causar o escorregamento. Ou seja, as análises mostraram que em diferentes inclinações houve condições de se justificar os escorregamentos.”, explicou Futai durante sua palestra.
Estas e outras análises apresentadas na palestra do dia 26 de novembro são resultados de pesquisas realizadas pelo Grupo de Pesquisa de Engenharia Geotécnica aplicadas às obras de infraestrutura (GeoInfraUSP), com destaque a quatro dissertações de mestrado de Carlos Rezende Cardoso Jr, Flávio Franch, Danielle Melo e Veroska Duñes.


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