Painel do Associado

Reformas são essenciais à retomada do crescimento, sustenta Manzalli, presidente da ABEF

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018 comentários

A ABMS inicia aqui uma série de entrevistas com personalidades expressivas do mercado com o objetivo de apresentar, na visão de cada uma delas, as perspectivas para os setores de infraestrutura e construção civil em 2019 e nos anos subsequentes. O entrevistado que abre a série é o engenheiro Gilberto Vicente Manzalli, diretor presidente da ABEF (Associação Brasileira de Empresas de Engenharia de Fundações e Geotecnia). Ele sustenta que as reformas previdenciária e tributária, acompanhadas do controle dos gastos públicos, serão essenciais para a retomada efetiva do crescimento econômico.

Como foi o desempenho do setor em que o senhor atua, ou do qual está próximo, agora em 2018? Haverá algum crescimento?
Manzalli: O desempenho do setor de engenharia de fundações e geotecnia, em 2018, em nosso país, foi e tem sido muito deficitário. O Brasil possui excelentes empresas e engenheiros que executam serviços nessa área tão especializada, mas, infelizmente, por conta de uma crise político-econômica sem precedentes, o setor da construção civil foi frontalmente atingido e, por consequência, nossa área também se encontra muito abalada. Soma-se a isso o mercado desleal alimentado por empresas (contratantes e contratadas) que não respeitam as leis, as normas da ABNT, as Normas Regulamentadoras (NR) do Ministério do Trabalho, não observam estudos de custos para lançarem seus preços e nem sequer seguem os parâmetros técnicos da engenharia propriamente dita.

Quais são as perspectivas para 2019? Haverá algum crescimento?
As perspectivas para 2019 dependem, essencialmente, da situação política do país. Havendo estabilidade, retoma-se a segurança jurídica, ampliam-se os investimentos internos e externos e, por consequência, o país volta a crescer economicamente. Sem essa estabilidade, o quadro é duvidoso. O Brasil é a oitava economia do mundo, formado por um povo honesto e trabalhador, um território continental, repleto de riquezas naturais, com inesgotáveis fontes de energia renovável e um agronegócio insuperável. Nosso país é um canteiro de obras, altamente carente de infraestrutura, como rodovias, ferrovias, pontes, túneis, portos, aeroportos, obras para saneamento básico. Mesmo no setor imobiliário, ainda há muito o que se construir. É preciso que o novo governo, tanto no Poder Executivo como no Legislativo, esteja comprometido com o povo, com a democracia, com o país e não com ideologias partidárias. Se reformas essenciais como a tributária e a previdenciária não forem efetivadas, será muito difícil estabilizar nossa economia. É essencial que haja uma redução drástica dos gastos públicos, com extinção de cargos inúteis e benesses da velha política de fisiologismo, efetivando-se a diminuição do Estado, o qual deve permanecer somente com suas funções básicas. Para a redução de despesas obrigatórias, só mesmo com essas reformas, mediante emendas constitucionais. Caso contrário, o crescimento será muito difícil. Com as reformas efetivadas nos dois primeiros anos do novo governo talvez reconquistemos a estabilidade econômica e comecemos a falar em crescimento a partir de 2022.

O próximo ciclo de crescimento virá do setor privado, do setor público ou da combinação de ambos?
Em nosso país, o Estado cresceu muito, assumiu muitas funções e passou a gerenciar muito dinheiro, de modo que a iniciativa privada, nos últimos anos, relaciona-se em demasia com a atividade estatal. Isso prejudica a economia, que fica amarrada a processos burocráticos complicados e morosos, como, por exemplo, licitações e fiscalizações. Tudo isso corroído, infelizmente, por uma corrupção endêmica. Novamente, dependemos da estabilidade política e das reformas para falarmos em novo ciclo de crescimento. O fato é que o setor privado somente voltará a investir se for retomada a segurança jurídica no Brasil, o que depende do setor público. Portanto, entendo que o crescimento ocorrerá com a harmonização das atividades de ambos os setores, público e privado.

O senhor acredita que empresas estrangeiras do setor de engenharia e da área de projetos irão aproveitar a oportunidade para participar do próximo ciclo de crescimento do país?
Empresas estrangeiras, no setor de engenharia, não de agora, vêm se instalando no Brasil. Quando o mercado estava aquecido, de 2010 a 2014, muitas delas desembarcaram por aqui. Algumas já desistiram e foram embora, por conta dessa grave crise, outras permaneceram. O interesse de fora sempre há. O Brasil, com toda essa instabilidade política e com todas as suas dificuldades, ainda é uma grande nação e um imenso campo de obra. Isso não ameaça a empresa nacional, muito pelo contrário, é até salutar. O que prejudica o mercado é a concorrência desleal, ou seja, as empresas que não observam a lei, não seguem as normas técnicas, não realizam estudos de custos e depredam o mercado, apresentando preços irrisórios para a execução de seus serviços; diga-se de passagem, um péssimo serviço. Quem contrata esse tipo de empresa, ainda que possa se arrepender depois, alimenta esse mercado irregular que tanto prejudica os empresários sérios e os trabalhadores. A ABEF, baseada na lei, na ética e cumprindo com suas funções estatutárias, envida esforços para combater essa concorrência desleal. Nesse sentido, já instituiu o Atestado de Regularidade Jurídica, emitido às suas associadas que apresentem documentação regular, com todas as certidões negativas em dia, e o Atestado de Capacidade Técnica, conquistado pelas associadas que observem as normas da ABNT, as NR’s do Ministério do Trabalho e comprovem a execução bem-sucedida de determinada metragem de obra, mediante apresentação de acervos técnicos face a uma comissão julgadora formada por representantes da própria ABEF, da ABEG e da ABMS. Enfim, empresas estrangeiras corretas podem e devem participar de nosso mercado até para tornar a concorrência cada vez mais saudável, repercutindo positivamente na melhoria constante da qualidade dos serviços, mas, da mesma forma que o investidor interno, o externo somente voltará a confiar no Brasil após a estabilidade político-econômica.

Em meio ao cenário negativo, há fatos, fenômenos ou aspectos positivos que o senhor gostaria de ressaltar?
Nas adversidades, os perseverantes crescem, ganham forças. Um fenômeno positivo, por exemplo, que tenho observado entre os empresários do setor, é a vontade de voltarem a conversar, unirem-se em defesa de seus direitos comuns. A ABEF é o ambiente legítimo para isso. Trata-se de uma associação sem fins lucrativos, reconhecida e respeitada no âmbito público e privado, agindo há quase 40 anos em favor do setor. Nossas empresas associadas estão entre as melhores do país. A Diretoria e o Conselho (empresários voluntários eleitos em assembleia geral) reúnem-se a cada 15 dias, isso quando não semanalmente, para deliberarem sobre os mais diversos assuntos que são pautados. Além de nossa sede muito bem instalada na capital de São Paulo, com estrutura de comunicação com todo o Brasil, sendo que temos Diretores e Conselheiros estabelecidos no Ceará, no Rio de Janeiro e no Paraná, portanto do Nordeste ao Sul, oferecemos apoio sobre assuntos de engenharia de fundações e geotecnia, como pareceres técnicos, além de consultoria jurídica nas várias áreas do Direito. De fato, é o local mais apropriado para os empresários de todo o Brasil se reunirem. Com essa crise avassaladora, a cada momento, recebemos muitos empresários, ampliando a troca de informações e conhecimento, o que contribui muito positivamente para a engenharia e para o mercado. Além das empresas associadas, estamos abertos para conversar com nossas ex-associadas e empresas que jamais participaram da ABEF. Recentemente, com todo esse transtorno vivido pelo país e pelo setor, temos percebido o interesse de muitos empresários em associarem-se. Pois bem, nesse cenário negativo, algo muito positivo: a união das empresas sérias do setor.

O Cobramseg 2018, ocorrido em plena crise da economia e da construção civil, recebeu um público excepcional. Mais de 1.500 pessoas participaram daquele Congresso em Salvador. A que o senhor atribui esse interesse por parte de profissionais, empresas e estudantes de engenharia?
De fato, o Cobramseg 2018, em Salvador, foi um grande sucesso! Aproveito para parabenizar, novamente, a ABMS, na pessoa de seu presidente nacional, engenheiro Alessander Kormann, diretor da FUGRO, associada da ABEF, aliás, detentora do cargo eletivo de Diretoria de Mercado, ocupado por nossa amiga, engenheira Lilian Swinka. Igualmente, merece congratulações o Núcleo da ABMS na Bahia, dirigido pelo engenheiro Luis Edmundo de Campos, que, neste ano, organizou e hospedou esse grande evento, recebendo-nos com uma hospitalidade fantástica, característica tão peculiar de nossos amigos nordestinos. E também a engenheira Luciene de Moraes, professora da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia. Estava tudo muito bem organizado: os conteúdos das palestras e cursos, a dinâmica, as atividades, os estandes de patrocinadores. Tivemos a honra de ser convidados e participamos da mesa de abertura e da sessão de fundações, nesta, com uma palestra sobre o interessante e premiadíssimo projeto da Consultrix, de autoria do Prof. Milton Golombek, sobre o Edifício Grande Ufficiale Evaristo Comolatti, na capital de São Paulo, SP, erigido em cima do metrô da Avenida Paulista, obra espetacular executada com tremendo sucesso pela GEOFIX, também nossa associada, detentora do cargo eletivo de Diretoria Financeira, ocupado pelo jovem e dinâmico engenheiro Gustavo Nahas. As mais de 1.500 pessoas que passaram pelo COBRAMSEG Salvador, dentre estudantes, professores, engenheiros, empresários e demais interessados pelo tema, realmente demonstraram o quão perseverante é o povo brasileiro. Ali estavam pessoas que realmente amam o que fazem e, independente da crise político-econômica pela qual passa o país, apesar das dificuldades, não deixaram de comparecer, participar, prestigiar. No Brasil, há mesmo este descolamento entre os que fazem, que trabalham, que estudam, que contribuem com o progresso e aqueles que jogam contra. Essa turma do bem está de parabéns!

O que de mais importante está acontecendo no meio acadêmico, especialmente nas áreas ligadas à engenharia geotécnica e à mecânica dos solos?
As atividades da ABEF, da ABEG, da ABMS e de outras entidades dessa natureza são constantes. Trabalhamos, voluntariamente, sem cessar, em prol da engenharia geotécnica. Trata-se de uma paixão para todos nós. Justamente no COBRAMSEG, em Salvador, ABEF e ABMS celebraram um protocolo de intenções regulamentando uma série de ações que já praticavam, em comum, há algum tempo, mas que foram, por este documento, organizadas e ampliadas. A ABEF e a ABMS, considerando todos os seus núcleos espalhados pelo Brasil, intensificaram suas participações em seus eventos. Já estamos, desde os fins de 2017, organizando o 9º Seminário de Engenharia de Fundações Especiais e a 3ª Feira da Indústria do setor, o SEFE 9, o maior evento dessa natureza em todo o Hemisfério Sul. Contamos, em nossas comissões de organização, com essas entidades coirmãs, a ABEG e a ABMS. Nosso plano é oferecer um viés mais prático aos conteúdos, ou seja, que nossos trabalhos técnicos, palestras e cursos foquem bem mais em casos de obras efetivamente executadas, apresentando sucessos e soluções, sempre em busca da otimização, do aperfeiçoamento da engenharia geotécnica. Assim, se o COBRAMSEG é a referência máxima de evento com conteúdo mais acadêmico, tão essencial para os estudos de engenharia, o SEFE deve ser, cada vez mais, o palco perfeito para a exposição de casos de obra, uma espécie de laboratório de nosso setor. O evento ocorrerá entre 4 e 6 de junho de 2019, no pavilhão E do Transamérica Expo Center, na capital de São Paulo, SP, com espaço para mais de 70 estandes de expositores, inúmeras atividades, palestras e cursos sobre os mais variados temas de engenharia de fundações e geotecnia, priorizando casos concretos de obras executadas, além de matérias de interesse geral dos empresários, como responsabilidade civil, seguros, direito trabalhista etc. A exemplo do SEFE 8, realizado em 2015, espera-se um público de mais de 10.000 pessoas, do Brasil e do exterior. Muitos professores universitários compõem as grades do SEFE9, refletindo, assim, o que de mais importante acontece nos meios acadêmicos em termos de engenharia geotécnica, embora, repito, essa edição buscará, o quanto possível, dar maior evidência às questões práticas, casos de obras.

O mundo passa por uma incrível revolução tecnológica. Em que medida essas mudanças estão afetando a engenharia, a construção civil e a engenharia geotécnica?
O avanço tecnológico é inerente ao ser humano e, se ficamos milhares de anos atidos a tecnologias primitivas, nos últimos 50 anos, tivemos enormes avanços. Não que, no passado, não houvesse obras maravilhosas da engenharia, haja vista as pirâmides do Egito, com mais de 3.000 anos, e muitas outras construções incríveis da Antiguidade e da Idade Média. Todavia, o salto dado pela chamada Era Digital é algo fascinante. O SEFE9, a exemplo do anterior, oferece espaço para apresentação das tecnologias mais avançadas. Trata-se do maior palco, no Hemisfério Sul, onde empresas fornecedoras das máquinas e equipamentos mais modernos do mundo estarão presentes. Quer conhecer revolução tecnológica em matéria de fundação e geotecnia? Participe do SEFE 9.

Quais são as principais inovações que podem afetar o segmento de construção civil nos próximos anos?
Quando se fala em construção civil, atenho-me à engenharia geotécnica, ou seja, àquilo que fazemos do solo para baixo, para sustentar toda a estrutura que se eleva acima disso. Como se vê, trata-se da base de tudo, um trabalho altamente especializado, que deve ser mais e mais valorizado. A ABEF possui um rico acervo técnico, sendo guardiã de estudos geotécnicos de inúmeros especialistas que publicaram seus trabalhos nos SEFE’s que realizamos desde 1985. Trata-se de palestras, cursos, teses de professores, mestres, doutores, brasileiros e estrangeiros, que têm por objeto os mais variados temas da engenharia de fundações e geotecnia. Esse material, brevemente, deverá estar todo digitalizado para que possamos disponibilizar para associados e não associados que tenham interesse em realizarem pesquisas nesse campo. Um dos objetivos mais nobres da ABEF, afinal, é a valorização da ciência e da prática da engenharia geotécnica. Além disso, a ABEF detém os direitos autorais sobre o Manual de Fundações – Práticas Recomendadas (última edição de dezembro/2016), que reúne as mais avançadas técnicas e inovações desse ramo, contendo, também, toda a regulamentação necessária para uma obra bem-sucedida, ou seja, a matéria específica de engenharia e as normas correlatas da ABNT e NR’s do Ministério do Trabalho. No mesmo sentido, ABEF e ABMS compartilham direitos autorais sobre o livro Fundações: Teoria e Prática (edição mais recente de outubro/2016), outro compêndio essencial para aqueles que atuam nessa área. Em se tratando de inovações no âmbito da engenharia civil, especificamente de fundações e geotecnia, tudo que acontece no Brasil e no mundo, simultaneamente, é vivenciado na ABEF, seja pelo contato que temos com outras instituições congêneres, inclusive com o Deep Foundations Institute, nos EUA, seja pela troca constante de know-how entre suas empresas associadas, bem como por meio de experiências e estudos próprios que desenvolve. Recentemente, a ABEF ampliou suas categorias de associados, congregando, além das titulares empresas que executam engenharia de fundações e geotecnia, outras empresas que desenvolvem atividades relacionadas, engenheiros e estudantes, visando a ampliar o quanto mais possível seu campo de atuação. A engenharia civil é dinâmica como a sociedade humana, jamais permanece estagnada, de modo que sempre apresentará uma solução, das mais simples às mais complexas, para qualquer situação. Assim foi ontem, é hoje e será amanhã… A ABEF sabe vivenciar e praticar isso.

 

Imagem: Michele Castro/ABEF


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