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Retomada do crescimento não será imediata. “Ainda há um deserto a vencer”, diz Sussumu Niyama

sexta-feira, 02 de setembro de 2016 comentários

sussumu-internaOs números da construção civil e das áreas de infraestrutura não são nada animadores. Desemprego em alta, crédito em baixa, consumidores endividados, incorporadores e construtoras com estoques nas mãos e falta de confiança para investir. Esse cenário difícil parece, no entanto, estar com os dias contatos. A retomada do crescimento virá, ainda que não seja imediata. “Ainda há um deserto a vencer”, acredita Sussumu Niyama (foto), diretor da Tecnum Construtora e ex-presidente da ABMS, que traça neste editorial um quadro geral das perspectivas econômicas para os próximos 24 meses. Leia mais.

“A solução da crise política abre novas perspectivas para a economia brasileira, que já vinha apresentado alguns tímidos sinais de melhora. Ainda temos, no entanto, um deserto a vencer, especialmente no setor de infraestrutura e construção civil, que sente de forma mais severa a queda do PIB, mas que, por outro lado, amplifica o crescimento nos períodos de alta.

“O processo de retomada não será imediato, é importante que se diga. Deve exigir algo entre 18 a 24 meses para se fazer notar de forma mais clara. As causas disso são bem conhecidas. O crédito está em níveis muito baixos, como mostram os números mais recentes. Instituições bancárias deixaram de financiar o setor perante insegurança do mercado, garantindo provisões para perdas.

“O consumidor final está endividado e mesmo quem está empregado não se arrisca a financiar projetos, temendo o desemprego. Outro problema diz respeito aos “distratos”, quando o cliente que comprou o imóvel na planta, devolve à construtora ou incorporadora por falta de condições de financiamento. Há empresas cujo índice de distratos situa-se entre 30% e 40%, níveis claramente intoleráveis para qualquer companhia.

“Da mesma forma, o ambiente macroeconômico não é ainda nada animador. Os juros estão em patamares muito elevados, o que prejudica especialmente os setores que exigem investimentos de retorno mais longo. Além dos juros altos, outro problema é a inflação, cujo retorno ao centro da meta levará ainda alguns bons meses.

Razões para otimismo

“Se essa é a fotografia, quando analisamos o filme inteiro e levamos em conta o potencial do Brasil, temos razões para sermos otimistas. Há capital em abundância pelo mundo à procura de boas oportunidades de investimento, especialmente agora quando os bancos centrais de muitos países desenvolvidos pagam juros negativos para os depósitos compulsórios.

“Se o Brasil equacionar de vez a questão política e adotar soluções racionais e ortodoxas no campo econômico, os resultados virão e esses capitais terão enorme interesse em participar de projetos imobiliários e de infraestrutura.

“A infraestrutura, por sinal, poderá despertar grande interesse dos fundos internacionais se o governo Temer fizer deslanchar as medidas que já anunciou, envolvendo as Parcerias Público-Privadas e as privatizações.

“A entrada desses recursos em projetos imobiliários e de infraestrutura pode inclusive abrir espaço para eventuais parcerias entre empresas internacionais e construtoras locais – um caminho possível, levando-se em conta que é muito difícil a uma companhia estrangeira entrar no país sem estabelecer laços e parcerias com empresas que já atuam no mercado interno.

“É evidente que haverá casos em que os agentes financiadores externos vão tentar vincular esses recursos à participação no projeto de construtoras específicas de seus países de origem. As companhias brasileiras devem estar atentas para entrar firme nessa disputa.

“As empresas que estiverem pensando em ocupar posição de destaque dentro de dois anos, quando a economia já estiver em velocidade de cruzeiro, devem começar a movimentar os projetos desde já. Os preços dos projetos de geotecnia e dos serviços como sondagens e fundações, por exemplo, são os mesmos de três anos atrás. Quem começar agora vai pagar muito menos e chegar em boa posição no futuro próximo.

“Quando a retomada ficar caracterizada e visível para todos, os valores dos projetos geotécnicos e da execução de fundações e de outros serviços voltarão aos patamares históricos – o que deixou de acontecer nesse período de crise, quando os padrões de preço e remuneração de serviços caíram por terra.

“A retomada do crescimento é um objetivo importante, sem dúvida. Sabemos, no entanto, que só isso não basta para sermos considerados, aos olhos do mundo, como um país sério e respeitado.

“Precisamos sepultar de vez o “jeitinho” e antes famosa “Lei de Gerson”. Precisamos ser inclementes com as práticas que destroem a credibilidade dos negócios. A nossa luta continua, portanto. Vamos juntos vencer mais esta batalha para alçar o Brasil, definitivamente, à condição que todos almejamos – a de uma Nação próspera, ambientalmente sustentável, socialmente responsável e implacável com as questões éticas. ”

Sussumu Niyama
Diretor da Tecnum Construtora
Ex-presidente da ABMS


Comentários


Retomada do crescimento não será imediata. “Ainda há um deserto a vencer”, diz Sussumu Niyama

  1. marcelo flora stockler disse:

    Caro Sussumun ,cordiais saudações
    parabéns pela explanação sobre nossa conjutura, expressando desta forma a clareza de nossa realidade.
    abraços

  2. Arsenio Negro disse:

    Caríssimo Sussumu,
    Parabéns pela muito oportuna e correta avaliação. Precisamos reconhecer nos como somos e, assim, mudarmos. Quem tiver dificuldade de entender a imagem que o atual momento nos reflete, leia o livro do Alberto Carlos Almeida, “A Cabeça do Brasileiro”, de 2007. É fácil fazer o download: http://www.doc-live.com/a-cabe%C3%A7a-do-brasileiro.pdf. Quem não tiver tempo de ler veja o que o autor diz no Roda Viva: https://www.youtube.com/watch?
    v=spQnyzyhFe4.
    Para vencer a batalha que você se refere a solução é simples: educação e meritocracia.
    Grande abraço!

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