Painel do Associado

Tarcísio B. Celestino, novo presidente da ITA, fala sobre seus planos e expectativas para a entidade e o mercado de túneis

segunda-feira, 30 de maio de 2016 comentários

tarcicio-presidenteita-internaEleito como o novo presidente da ITA – International Tunnelling and Underground Space Association –, o engenheiro e professor Tarcísio B. Celestino fala aqui sobre suas expectativas para o mercado de túneis no Brasil e no mundo, os desafios da nova função e a honra de se tornar presidente da principal entidade internacional de túneis. “Nunca havia pensado em ir à lua mas, de repente, vi a lua logo ali, na esquina. E aí, claro, decidi ir até ela”, diz Tarcísio sobre a presidência da ITA. Acompanhe o editorial completo.

“Como já disse anteriormente, em fevereiro estava em Lisboa, naquela que eu acreditava ser a minha última reunião como Vice-Presidente da ITA. Nunca havia me passado pela cabeça me candidatar à presidência da entidade. Mas diversos fatos ocorreram e por sugestão e apoio de figuras muito importantes, fui indicado pelo Conselho Executivo para me candidatar ao cargo de presidente. Algo que sempre pareceu tão distante estava agora bem próximo.

No dia 27 de abril de 2016, me surpreendi com o resultado das eleições. Tive 56 dos 57 votos possíveis (houve uma abstenção) na Assembleia Geral da ITA. E me tornei, então, presidente da Associação Internacional de Túneis e do Espaço Subterrâneo.

Às vezes me pego pensando, e já até escrevi isso a um amigo tuneleiro. Estou hoje num hall de grandes nomes da engenharia de túneis mundial, ex-presidentes da ITA como Muir Wood, Einar Broch, Harvey Parker, André Assis. Será que estou à altura destes nomes? De qualquer forma, estou vivendo um dos principais momentos da minha carreira e sou muito grato a todos pelo apoio que tive e continuo tendo!

A eleição

Não tenho dúvida de que não fui eleito sozinho e nem por acaso. Acredito que dois fatores foram fundamentais para a minha eleição: a excelente gestão de André Assis à frente da ITA de 2001 a 2004 e suas realizações na ITACET (Comitê da ITA para Educação e Treinamento), dentre elas a própria criação do Comitê, e a boa atuação do CBT (Comitê Brasileiro de Túneis) nos planos nacional e internacional. Não fossem estes dois fatores, o Brasil e, consequentemente o meu nome, jamais seriam lembrados para presidir a ITA.

A ITA e os túneis pelo mundo

Depois de uma grande ampliação no número de países membros da ITA, na gestão In-Mo Lee (2010-2013), é hora, agora, de aproximar a ITA de nações que ainda não são muito ativas na entidade. Existem países que participaram de pouquíssimas ou nenhuma Assembleia Geral. Um dos desafios desta gestão é chegar a essas nações e torná-las ativas para que, como consequência, o mercado de túneis naqueles países se torne mais forte.

A associação com a ITA é uma via de mão dupla. A ITA é o vetor importante para promover obras subterrâneas pelo mundo. Muitos países passaram a ter desenvolvimento de sua indústria de obras subterrâneas graças à presença da ITA. O papel principal da ITA é expandir o mercado de túneis no mundo. Tendo mais países membros, a entidade aumenta seu alcance pelo globo e, assim, pode disseminar a cultura dos túneis, tão benéfica para a sociedade.

A previsibilidade do túnel

Muita gente ainda acredita que não se sabe quando termina e nem quanto vai custar a obra de um túnel. É preciso tirar esta ideia da cabeça das pessoas. Túnel é uma obra previsível, sim! Pode-se saber quando começa, quando termina e quanto se vai gastar.

Um exemplo é a linha 2 do metrô de Manhattan, nos Estados Unidos. É uma obra belíssima, que teve diversas exigências dos moradores para ser executada. A população queria a obra, mas não queria o barulho, a sujeira e o transtorno no trânsito que ela poderia causar. Então durante todo o dia e uma parte da noite, não havia sequer um caminhão na região. Tudo foi feito em horários muito estratégicos. E mesmo com todas essas condições, a obra começou e acabou no prazo e sem um centavo de aditamento contratual. E com enorme simpatia da comunidade, onde vive a maior concentração de advogados do mundo.

A ITA, nos critérios de julgamento de seu prêmio internacional, valoriza este aspecto: obras que terminaram no prazo e sem aditamentos contratuais.

Mas nem precisamos ir tão longe. Tive a oportunidade de trabalhar, aqui no Brasil, para o metrô de São Paulo, em uma obra em que, ao final do contrato, sobrou dinheiro. Numa época em que a legislação permitia que a engenharia atuasse mais, analisou-se instrumentação, interpretou-se e chegou-se à conclusão de que era possível economizar em determinadas partes. Ao final, não foi preciso usar toda a verba disponível. O Metrô, neste caso, continuou a extensão do túnel, que hoje é utilizado na Extensão Norte.

Ou seja, prever prazo e custo de uma obra de túnel é algo que pode e deve acontecer! É possível desde que se siga o figurino. Não se pode atropelar etapas. Não adianta fazer obra sem projeto, por exemplo.

Túneis são seguros

Precisamos mudar também a imagem de insegurança que os túneis às vezes passam para a população. Precisamos mostrar que isso não é verdade. Existem, sim, acidentes em construção de túneis, mas uma coisa posso dizer: nunca vi ou ouvi sobre um acidente em que não houvesse uma razão de engenharia ou geologia por trás. Em todos os acidentes com os quais já me envolvi – principalmente como membro de comissão de investigação – nunca houve fato inusitado.

O que falta para a indústria tuneleira é aprender com os erros. Se olharmos outras áreas, como a indústria aeronáutica, por exemplo, a evolução é nítida. Trabalhou-se, em acidentes passados, para descobrir o que precisava ser melhorado e não para encontrar culpados. O resultado é que a segurança na aviação aumentou muito. O índice de acidentes hoje é baixíssimo.

Outro exemplo são as barragens. O ICOLD – Comissão Internacional de Grandes Barragens – fez um levantamento de acidentes de barragens nos anos 1970 que contribuiu muito para aumentar a segurança de barragens. Uma base de dados muito confiável, bem-feita e abrangente que serviu e serve como input para muitas pesquisas sobre segurança de barragens.

É algo deste tipo que precisamos fazer. Ainda não temos solução pronta, mas certamente é possível, basta ver os exemplos de outras áreas. E vamos trabalhar para encontrar o caminho e dar início a este trabalho.

O Brasil

Enxergo o mundo através do Brasil, onde vivo. Estando à frente da ITA, espero poder contribuir para fortalecer a cultura dos túneis em meu país, convencer os tomadores de decisão e os ambientalistas sobre os benefícios das obras subterrâneas, trazer para o Brasil o que os países desenvolvidos já acreditam e praticam. Em contrapartida, precisarei de abertura por parte do país. O Brasil deve estar aberto para receber as contribuições da ITA.

Conto com o apoio de toda a comunidade brasileira para fazer uma boa gestão à frente da ITA e para promover a cultura e a tecnologia dos túneis pelo Brasil e pelo mundo!

Obrigado a todos!

Tarcísio Barreto Celestino
Presidente da ITA e do CBT


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *