Do Nepal às rodovias paulistas: casos reais mostram o custo elevado de não prevenir os desastres geológico-geotécnicos - ABMS
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Do Nepal às rodovias paulistas: casos reais mostram o custo elevado de não prevenir os desastres geológico-geotécnicos

São Paulo

06/10/2026

Os desastres geológico-geotécnicos produziram prejuízos de 730 bilhões de reais para o Brasil entre 2013 e 2024, segundo dados da Confederação Nacional dos Municípios. E o prejuízo pode ser ainda maior, afirmou o geólogo Pedro Simões, da empresa Regea, durante o V Workshop de Desastres Geológico-Geotécnicos – Ações e Soluções para Áreas de Risco, organizado pelo Núcleo Regional São Paulo da ABMS e realizado na Unesp em Rio Claro (SP) nos dias 24 e 25 de setembro.

Simões lembrou, na sua apresentação, que menos da metade dos municípios afetados fez a notificação ao sistema nacional, o que indica subnotificação. "Provavelmente o prejuízo é pelo menos o dobro desse valor. Estamos falando de mais de R$ 1 trilhão em perdas por não adotarmos as ações preventivas", afirmou. Ele citou ainda dado da ONU segundo o qual a ação preventiva custa seis a sete vezes menos do que a reparação.

As cartas de risco, explicou, são o primeiro instrumento de prevenção, pois mostram onde agir, seja com obras, seja com gestão de risco. Nas áreas em que a intervenção ainda não foi possível, é preciso manter a população sob gestão, com planos de contingência, sistemas de alerta eficientes e rotas de fuga que levem as pessoas a locais realmente seguros. "Ele não pode sair de uma área de inundação e correr para cima da encosta que está deslizando", exemplificou.

Simões também valorizou a troca com empresas presentes no evento, e as pesquisas desenvolvidas na Unesp. “A parceria com a universidade é uma realidade e precisa ser cada vez mais próxima de nós.”

Assista às entrevistas com Robinson Avila e Pedro Simões:

Uma tragédia distante, lições para o Brasil

O geólogo Marcelo Gramani, do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), levou ao evento o caso recente do Nepal, que, segundo ele, impressionou pela dimensão e pela cadeia de processos envolvidos. Gramani explicou que tudo começou com uma avalanche que, além de neve, mobilizou muita rocha. Em efeito cascata, o material virou uma corrida de massa e, depois, inundações. "Ficou conhecido como inundação no Nepal, mas não podemos esquecer de tudo o que aconteceu a montante", ressaltou.

O geólogo traçou paralelos, guardadas as proporções, com Santa Catarina, em novembro de 2008, quando grandes movimentações de encostas bloquearam cursos d'água e formaram barramentos e lagos que, em alguns casos, se romperam durante as ações de emergência. "Aqui no Brasil também existe a condição de formação desses lagos naturais, temporários, que podem se romper a qualquer momento durante um evento crítico de chuva", alertou.

Ele lembrou que os grandes eventos estão cada vez mais frequentes. Em 1948, centenas de corridas de massa atingiram parte de Minas Gerais e de São Paulo e deixaram mais de 200 mortos. Mais recentemente ocorreram fenômenos semelhantes na Baixada Santista, em Petrópolis (RJ), São Sebastião (SP) e no Rio Grande do Sul. "A verdade é que temos que nos preparar para atender pelo menos uma grande emergência a cada ano", afirmou.

Ele apresentou ainda as cinco etapas da abordagem de áreas de risco: identificação, análise, medidas estruturais, medidas não estruturais e preparação para emergências, além de informação pública e treinamento. Para Gramani, eventos como o workshop levam conhecimento aos técnicos e, a partir deles, à população e aos tomadores de decisão. "Tem técnica, tem recurso financeiro, tem como resolver."

A visão de quem atua na linha de frente

Representante da Defesa Civil de Rio Claro, Niuro Ribeiro explicou que o órgão trabalha em sistema, em conjunto com União, estado, município, Corpo de Bombeiros, SAMU e as secretarias municipais. Segundo ele, a parceria com a universidade é fundamental. "Nós, trabalhando no operacional, temos o conhecimento empírico, e a universidade traz para nós o científico. São dois pontos extremamente importantes que devem trabalhar juntos."

Ribeiro destacou também um desafio cultural. "O brasileiro, na minha concepção, não tem percepção do risco. Não temos a identificação do risco que está à nossa volta", disse. Para ele, encontros como o workshop são importantes porque cada área do saber contribui para construir qualidade de vida, segurança e desenvolvimento urbano e rural.

Assista às entrevistas com Marcelo Gramani e com Niuro Ribeiro:

Resiliência climática nas rodovias

Robson Avila, diretor-presidente da Eixo SP, maior concessionária de rodovias do país, com 1.221 km em 66 municípios paulistas, apresentou a experiência da companhia. Ele destacou o trecho da Serra de Santa Maria da Serra, na SP-304, entre os municípios de Torrinha e Santa Maria, atingida por três eventos climáticos extremos, com chuvas concentradas e de grande volume.

A resposta combinou engenharia e monitoramento. Além de recuperar a pista, a concessionária elevou o nível de segurança da rodovia e, depois, implantou estações meteorológicas e um plano de ação e contingência.

Sobre o workshop, Avila comenta que "é um encontro necessário. Nós unimos a academia com as empresas, com profissionais seniores, e há troca de experiência de vários setores. Nós precisamos fomentar isso no Brasil", afirmou.

 

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